Slow Science: contra a “mcdonaldização” da Ciência

Abrindo minha caixa de e-mails, uma mensagem me chamou a atenção. Seu título era “Contra a mcdonaldização do trabalho intelectual”.

Lembrei que, há um tempo atrás, tive contato com o livro A McDonaldização da Sociedade, de George Ritzer. Nesse livro, o autor, com base na teoria weberiana da racionalização, diagnostica que a sociedade contemporânea, em várias esferas, passa por um processo de “mcdonaldização”. Esse processo, como o próprio nome denuncia, tem como modelo a “racionalidade” das cadeias de fast food.

Seriam características desse modelo: a eficiência, no sentido de uma alocação ótima de certos meios para a obtenção de um fim; a calculabilidade, isto é, a possibilidade de se quantificar os custos e resultados do processo; a previsibilidade, ou seja, a alta probabilidade de se obter o resultado esperado; e o controle, quer dizer, a capacidade de se monitorar cada etapa do trabalho a fim de evitar falhas ou interferências que possam ameaçar o êxito do processo. Essas características podem muito bem ser desejáveis quando alguém entra num fast food, com o objetivo de saciar sua fome da maneira mais rápida possível, pagando um preço acessível por um produto do qual já tem ideia do sabor.

Agora, quando se quer saborear uma refeição bem elaborada, com ingredientes selecionados, na presença de pessoas agradáveis, tendo uma conversa interessante, sem pressa, certamente o restaurante fast food não é o lugar mais adequado. A invasão dessa mentalidade fast food provocou a reação dos amantes da “boa mesa”, que organizaram o movimento slow food, como forma de tentar conter esse processo de “mcdonaldização” no âmbito da alimentação.

Ao que parece, Ritzer estava certo ao diagnosticar a “mcdonaldização” se instalando em outras esferas da sociedade contemporânea. Pois agora — na verdade, desde 2010 — temos também o movimento Slow Science, o qual justamente se opõe à “mcdonaldização” do trabalho intelectual. De fato, o estado atual da Academia não deixa de lembrar as características da “mcdonaldização”. Os cientistas têm que ser eficientes, ou seja, ter uma “produção científica” condizente com os recursos que recebem (bolsas e verbas de pesquisa), o que se traduz numa produtividade calculável pela quantidade de artigos publicados; publicação que, previsivelmente, deverá ocorrer uma vez que o currículo Lattes funciona como um instrumento de controle, por meio do qual é possível aferir se os cientistas estão “fazendo o seu trabalho”.

Isso seria perfeito se se tratasse de fast food. Mas como se trata de ciência, esse produtivismo acadêmico pode acabar comprometendo a geração de um conhecimento verdadeiramente científico. E é isso que denuncia o manifesto da Slow Science, que é transcrito nas linhas a seguir:

MANIFESTO DA “SLOW SCIENCE”

Nós somos cientistas. Nós não blogamos. Nós não twittamos. Fazemos as coisas a nosso ritmo. Mas não nos levem a mal – dizemos sim para a ciência acelerada do início do século 21. Dizemos sim ao constante fluxo de publicações revisadas por peer-review e a seu impacto; dizemos sim para blogs de ciência e para a necessidade de mídia e de relações públicas; dizemos sim à crescente especialização e diversificação em todas as disciplinas. Nós também dizemos sim para que a investigação retroalimente na saúde pública e na prosperidade futura. Todos nós estamos neste jogo também.

No entanto, sustentamos que isto não pode ser tudo. A ciência precisa de tempo para pensar. Ciência precisa de tempo para ler, e tempo para falhar. A ciência nem sempre sabe o que pode ser crucial agora. A ciência se desenvolve de modo inconstante, com movimentos bruscos e saltos imprevisíveis para a frente – ao mesmo tempo, no entanto, arrasta-se progredindo em uma escala de tempo muito lenta, para a qual deve haver espaço e para a qual a justiça deve ser feita.

A ciência lenta foi praticamente a única ciência concebível por centenas de anos; hoje, argumentamos, ela merece ser revivida e necessita proteção. A sociedade deve dar aos cientistas o tempo necessário, mas mais importante, os cientistas devem fazer a seu ritmo.

Precisamos de tempo para pensar. Precisamos de tempo para digerir. Precisamos de tempo para nos desentendermos, especialmente quanto a promoção do diálogo perdido entre humanidades e ciências naturais. Nós não podemos continuamente dizer o que nossa ciência significa, para que ela servirá, porque nós simplesmente ainda não sabemos. A ciência precisa de tempo.

P.S.: o manifesto também está disponível aqui (pdf em inglês).

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