Rio+20, ou a nova Babel

Começou nesta semana a Rio+20, Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável. A reunião acontece 20 anos depois da Rio 92, conferência que consagrou a ideia de desenvolvimento sustentável, incluindo a dimensão ambiental no rol das preocupações mundiais.

Embora o tema e o lugar desses grandes eventos sejam os mesmos, a atmosfera que os envolve é bem diferente.

Ao fim da Rio 92 o clima era de otimismo. O encontro rendeu diversos documentos oficiais: as convenções sobre o clima, a desertificação e a biodiversidade; uma declaração sobre as florestas; a Carta da Terra e a Agenda 21. A impressão era de que se tinha chegado a uma síntese entre o anseio de se promover a preservação do planeta, ao mesmo tempo em que se garantiria as condições de desenvolvimento a todas as nações do mundo.

Doce ilusão. Hoje, 20 anos depois, o clima é de ceticismo. A impressão que se tem é de que, se um dia o desenvolvimento sustentável foi capaz de agradar a gregos e troianos, atualmente ele desagrada a ambos. E desagrada pelo mesmo motivo que um dia foi unanimidade: a ideia de sustentabilidade comporta tantos significados quantos se queira atribuir a ela. Ou seja, a falta de clareza acerca da ideia, se um dia permitiu que se construísse um consenso, hoje mostra que esse consenso não passava de falácia.

Todos falam do tripé do desenvolvimento sustentável: a dimensão ambiental, a social e a econômica. Só que esse tripé não sustenta qualquer coisa que se coloque sobre ele. E isso porque os representantes de cada tripé procuram, cada qual, “puxar a brasa pra sua sardinha”. O resultado: todo mundo fica frustrado e contrariado.

“A Confusão das Línguas” por Gustave Doré (1865) — foi em Babel, mas bem que podia ser no Rio.

Os ambientalistas se queixam de que os economistas e políticos não escutam “a Ciência” — como se essa fosse uma força transcendente que representa “a Verdade”, e não uma construção humana. Nesse sentido, os ambientalistas não fazem concessão alguma: ou a humanidade segue aquilo que eles, representantes da “verdadeira ciência”, dizem, ou o planeta está fadado à completa destruição. Quem não concorda com o credo ambientalista é, desde já, um exterminador do futuro (pena que nem todos os seres humanos tenham futuro, já que alguns nem presente têm).

Os economistas, por sua vez, não admitem que sejam questionadas a economia de mercado e, principalmente, a “vaca sagrada” do crescimento econômico. Para estes, discussões políticas e ambientais parecem mera perda de tempo. Desde que se precifique adequadamente o custo de poluir e destruir o meio ambiente, o mercado pode resolver todos os problemas ambientais. Ademais, o paraíso do desenvolvimento está garantido para todos as nações que perseguirem o crescimento econômico — sem que esse comprometa a austeridade fiscal, evidentemente.

Os políticos, por fim, se veem enredados na teia de interesses que estes representam — ou seja, os interesses do capital. A situação de crise econômica mundial coloca a política de joelhos diante das exigências e da intransigência dos agentes econômicos poderosos. Pouca é a expressão que os movimentos populares conseguem ter dentro da política representativa. A preocupação com o meio ambiente é muito mais um jogo de cena para não desagradar demais os já descrentes eleitores. E o mesmo se dá com o “desenvolvimento social”: mero reformismo para diminuir a miséria, quando esta não compromete as metas de austeridade fiscal, isto é, os interesses dos capitalistas.

E é nesse cenário que ocorre a Rio+20. Tal qual na Torre de Babel — empreendimento humano que desafiava o poder divino — , os homens estão imersos em confusão e não se entendem (até o momento os negociadores não conseguiram chegar a um texto para a Rio+20). O destino do desenvolvimento sustentável parece não ser muito melhor que o da torre.

Enquanto isso, a questão permanece em aberto:

Desenvolvimento sustentável: conservador ou revolucionário?

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