Problema transferido, problema resolvido

Lembro-me de, um dia desses quando voltava para casa, ter presenciado uma cena no mínimo curiosa através da janela do ônibus. O coletivo passava pelo elegante bairro do Cambuí quando, da janela da área de serviço de seu apartamento, um morador sacudia sua toalha de mesa, deixando cair as migalhas num jardim do condomínio.

Outro dia, dessa vez esperando o ônibus num ponto da movimentada Avenida Brasil, observei o duro trabalho dos garis recolhendo a imundície alheia. Copos de refrigerante, latinhas de alumínio, recipientes de plástico, bitucas de cigarro, papéis de todo tipo… Tudo jogado no passeio público, como se aquele espaço não pertencesse a ninguém. E como se aquele problema, o lixo, fosse desaparecer por um passe de mágica.

Não importa se estamos no Cambuí, no centro ou na periferia; num ponto de ônibus ou numa autoestrada; o que impera é o princípio do problema transferido, problema resolvido. Ou seja, quem vai resolver o problema eu não sei, mas já que o passei adiante posso ficar tranquilo.

Esse princípio parece sintetizar o pior do individualismo liberal com o pior do autoritarismo conservador presentes na nossa sociedade brasileira.

Individualismo daquele que se esquece de que faz parte de uma coletividade e, sendo assim, de que transferir o problema a outrem não significa resolvê-lo, mas apenas mudar o endereço do problema. Entretanto, o que transparece no senso comum são apenas os indivíduos competindo entre si. Sendo assim, por que alguém deveria se preocupar com migalhas, enquanto tem que se ocupar em vencer o jogo? O senso de competição supera o senso de cooperação.

Por outro lado, temos o autoritarismo conservador daquele que julga sua posição na sociedade pelos seus bens, acreditando que o trabalho braçal é uma indignidade que cabe aos que estão “no mais baixo da escala do trabalho” — como diria Boris Casoy. Segundo esse autoritarismo, o bordão que define a ordem social é o velho “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, triste herança dos tempos de casa grande e senzala.

Isso tudo só revela o quanto ainda estamos engatinhando no sentido de vivermos numa sociedade verdadeiramente democrática. Não podemos negar que os primeiros passos foram dados. A consolidação das instituições democráticas, a Constituição de 1988, a participação dos movimentos sociais estão aí para nos alentar. Mas o caminho até  uma nova ordem social está cheio de detritos para recolher.

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2 Respostas para “Problema transferido, problema resolvido

  1. E tem um outro lado: da participação na luta à favor da sustentabilidade ou do ecologismo. No fim, a ação ecológica se transforma em ação moral individual, quase como crença, em que o indivíduo faz algo (como jogar o plástico na caixinha certa de lixo) e se sente bem, e se livra da culpa.

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