Para o divã — e não para as manchetes

As declarações do ministro do STF Gilmar Mendes nos últimos dias têm esquentado ainda mais a cena política, já em polvorosa com a CPMI do Cachoeira.

Segundo Mendes, o ex-presidente Lula o teria chantageado: em troca de um adiamento no julgamento do Mensalão, o ministro do STF seria “blindado” na CPMI. Essa chantagem teria se dado numa reunião informal ocorrida no escritório do ex-ministro Nelson Jobim.

Lula e Jobim desmentiram a versão de Mendes. Este, em entrevista concedida à GloboNews em 29/05, amenizou as acusações: agora, Lula teria “insinuado” o envolvimento do ministro com o contraventor Carlinhos Cachoeira, além de ter expressado a opinião de que o julgamento do Mensalão não teria objetividade. Ou seja, Lula teria feito, digamos, uma “chantagem subliminar”.

Depois dessa entrevista titubeante, Mendes voltou à carga de forma virulenta: passou a acusar a existência de um complô para desacreditar o STF, sobretudo a sua pessoa. Denunciou o que, segundo ele, é um esquema articulado por gângsters. Tudo para “melar” o julgamento do Mensalão.

Coisa de louco?

Não tivesse o ministro do STF tamanha consideração por parte da nossa grande imprensa, provavelmente ele seria encaminhado para o divã — e não para as manchetes.

Primeiro, porque me parece um caso clássico de mania de perseguição. Ao ouvir cuidadosamente as declarações de Gilmar, tem-se a clara impressão de um sujeito que acomoda todos os fatos num grande esquema conspiratório contra a sua pessoa. Da opinião para a insinuação e da insinuação para a chantagem, tudo se transforma em um piscar de olhos.

Em segundo lugar, Mendes parece um caso clássico de mitomania. Ele se mostra tão convencido de sua teoria conspiratória que é incapaz de aceitar que, talvez, não exista todo esse esquema e esses gângsteres que ele afirma existirem. Ou seja, talvez ele não tenha sequer consciência de que o que diz não corresponde à realidade. Se bem que existem os peritos de plantão que identificaram uma alta possibilidade de Gilmar ter mentido, em algumas declarações.

Por fim, resta clara a megalomania de Gilmar Mendes. Assim como Luís XIV afirmava L’État c’est moi, Gilmar parece acreditar que ele é o STF. Acusá-lo significa acusar todo o tribunal? Ora, o STF é um órgão colegiado. Sendo assim, por que motivo Lula tentaria influenciar no julgamento do Mensalão negociando justamente com um magistrado com quem poucas afinidades? Freud talvez explique.

Certo é que a importância atribuída à fala de Mendes, que está mais para um delirante do que para uma das autoridades mais importantes da República, assim como a credibilidade conferida à revista Veja, mostram o desespero de certos setores políticos e da grande mídia brasileira à medida em que a CPMI do Cachoeira vai trazendo à luz novos fatos. Acho que vai ter gente naufragando abraçada nessa cachoeira.

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