Cada época tem o herói que merece

Tive um professor que certa vez, ao falar sobre como os astronautas americanos e cosmonautas russos eram tratados como verdadeiros heróis pelas massas no século XX, chegou a afirmar que em nossa época não existiam figuras que assumissem esse lugar do herói no imaginário popular.

De fato, hoje em dia ser astronauta ou cosmonauta não parece ser grande coisa — isto é, se você quiser se tornar uma celebridade. De fato, é bem mais fácil dizer o nome de um pop star da música ou do cinema hollywoodiano, ou quem sabe de algum esportista célebre. Talvez seja até mais fácil lembrar de uma sub-celebridade. Pobres desbravadores do espaço.

Acho que cada época tem os seus heróis. E a nossa não é diferente. Só que cada época tem o herói que merece.

Os povos da Antiguidade tiveram seus grandes imperadores e suas dinastias. Os gregos, por sua vez, tiveram os seus poetas, políticos e filósofos célebres. Os romanos, então, tiveram seus grandes generais.

Na Idade Média, não foi muito diferente. A novidade foi que além dos militares, multiplicaram-se também os santos. Um heroísmo entre a cruz e a espada.

Com o Renascimento e emergência da Modernidade, tornaram-se heróis aqueles que colocaram o ser humano no centro, numa nova visão — científica — do mundo: da Vinci, Galileu, Descartes, Bacon, Newton… só para citar alguns.

Quando essa Modernidade amadurece a ponto de romper definitivamente com os laços feudais, novos heróis surgem junto com as novas realidades sociais. Os agentes das revoluções políticas (a revolução francesa, por exemplo) e da revolução econômica (a revolução industrial) se apresentam para ocupar esses papéis.

Essas transformações radicais provocadas pela ascensão da burguesia logo se espalharam pelo mundo, que passou a viver cada vez mais integrado, num mercado mundial. Os Estados -nação com seus respectivos povos se lançaram num processo de expansão, muitas vezes sob a égide dos seus líderes, alçados quase ao nível de divindades. Que o digam Mussolini, Hitler, Stálin, entre outros.

A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, com o mundo regido pela disputa entre as potências hegemônicas — EUA e União Soviética — , a corrida espacial fez os seus heróis: os astronautas norte-americanos e os cosmonautas russos.

Com a queda do muro de Berlim, houve quem decretasse o “fim da história”. Longe disso, pois se a história tivesse chegado ao final, não teríamos mais heróis.

E hoje, num mundo em que o neoliberalismo capenga mas continua hegemônico, a figura que encarna o herói é o empreendedor. Sim, o grande herói é aquele que sabe “inovar”. Ou seja, aquele que sabe transformar ideias em dinheiro. Qualquer um com essa habilidade pode parecer cool. Eis o grande talento do herói contemporâneo.

Bill Gates, Mark Zuckerberg, Steve Jobs (que ainda é a “alma” da Apple) e outros incontáveis CEOs do nosso mundo são os heróis que nos restaram. Pelo menos, essa é a impressão que eu tenho quando vou a uma banca de jornal ou mesmo quando estou num ambiente “corporativo”.

Para quem já teve heróis como Sócrates, que se colocou em busca da verdade; como da Vinci, que procurou viver como o homem universal; como os astronautas e cosmonautas, que desbravaram o cosmos; os heróis contemporâneos nos mostram a estreiteza a que o ser humano é submetido no capitalismo neoliberal: a estreiteza do interesse próprio.

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2 Respostas para “Cada época tem o herói que merece

  1. Como sempre, uma crônica que vale a pena ler! Abraços.

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