Uma ilha no Planalto

A presidenta Dilma estampa a capa da revista Veja desta semana, fato que pode ser entendido como mais uma aproximação do governo com a grande mídia do país.

De fato, os grandes veículos de imprensa têm sido particularmente generosos com a presidenta, apesar de não pouparem esforços para desestabilizar o governo — que o digam os ministros derrubados por denúncias de suposto envolvimento em esquemas de corrupção (sim, pois a mera suposição já era suficiente para a imprensa voltar seu arsenal midiático contra os acusados). Nesse processo, Dilma foi retratada como a “faxineira” que promovia uma “limpeza” dos maus elementos do governo.

Outro aspecto que sempre angariou grande simpatia da imprensa foi o “perfil técnico” da presidenta. Os grandes jornais sempre alimentaram a imagem de um Lula “fanfarrão”, que só se valia da sua habilidade política — e sorte — para conduzir um governo com elevadíssimo índice de aprovação. Dilma seria o contraponto a Lula, privilegiando o aspecto gerencial do governo, deixando de lado a política.

Nesse ponto, no que diz respeito à presidenta, a imprensa não deixa de ter certa razão. Mas as consequências dessa realidade são preocupantes para a agenda dos movimentos sociais e setores progressistas da sociedade. A falta de uma interlocução mais próxima do governo com esses setores já causa mal estar desde o primeiro ano do mandato presidencial — e se agrava a cada flerte do governo com setores conservadores, como a grande imprensa, por exemplo.

Porém, o “déficit político” do governo Dilma já causa dificuldades concretas. A “rebelião” da base aliada no Congresso, quando esta se recusou a votar a Lei Geral da Copa na semana passada, dá a medida das dificuldades que o Executivo pode enfrentar daqui para frente.

Dilma tem a intenção de promover a “moralização da política”, acabando com a lógica do “toma lá, dá cá” no jogo político. Em que pese a boa intenção da presidenta, me parece difícil que ela consiga, de uma hora para outra, por um fim a um modus operandi que toma conta da política brasileira desde seus primórdios — ou em algum momento da nossa história o interesse público esteve acima do interesse privado? Se o governo é pragmático o bastante para ser um governo de coalizão e estabelecer uma interlocução com setores conservadores (que, diga-se de passagem, se opuseram à candidatura de Dilma à presidência), me parece um pouco paradoxal esse “ímpeto moralizador”.

Essa postura do governo, a meu ver, provoca seu próprio isolamento. Por um lado, ele perde as alianças fracas, alimentadas pelo mero fisiologismo dos partidos “interesseiros” da base aliada (que é o caso do PMDB, por exemplo). Por outro lado, perde a sustentação forte da militância dos setores à esquerda e dos movimentos sociais, os quais apoiaram a candidatura de Dilma em 2010, a fim de evitar a eleição do projeto conservador representado por José Serra.

E, nesse cenário, quem restará para apoiar o governo? A grande imprensa defenderá a presidenta, como tem feito até agora?

Parece-me claro que não. A postura elogiosa à presidenta está mais para um canto de sereia — pelo qual o governo, lamentavelmente, parece estar sendo seduzido. Ao exaltar a postura “técnica” e “moralizadora” do governo, a imprensa incentiva o distanciamento do governo tanto em relação aos setores mais à esquerda quanto aos partidos fisiológicos, aliados de ocasião. Com isso, uma ilha vai se formando no Palácio do Planalto. E os barões da mídia só esperam o momento mais oportuno para afundá-la.

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