Sacolas reutilizáveis e gente descartável

Hoje, 25 de janeiro de 2012, data em que se comemora o aniversário da capital paulista, as redes de supermercado deixaram de fornecer gratuitamente as sacolinhas de plástico para seus clientes. A iniciativa, apoiada pelo governo do estado, visa a promover a sustentabilidade, segundo seus idealizadores.

Mas a truculenta desocupação do Pinheirinho, que começou no domingo passado, foi algo tão bárbaro que não consigo deixar de pensar nesse triste acontecimento. Tanto que consegui estabelecer uma relação entre o massacre do Pinheirinho e a aposentadoria das sacolinhas plásticas. Se estou delirando, vocês dirão.

Sacolas reutilizáveis

Em que pese o fato de que os plásticos causam um impacto considerável sobre o meio ambiente — ainda mais em suas versões não-biodegradáveis — , não me parece que deixar as sacolinhas de lado será uma solução para “salvar o planeta”.

Primeiro, porque a ideia de “salvar o planeta” é uma balela. É um pouco pretensioso achar que a humanidade seria capaz de destruir um planeta de 4,5 bilhões de anos e todas as suas formas de vida, que já passaram por alguns grandes cataclismas ao longo de sua história. O que podemos almejar, no entanto, é prolongar a existência da espécie humana na Terra. Nesse sentido, a adoção de sacolas retornáveis ou reutilizáveis certamente tem sua relevância para reduzir o impacto ambiental causado pelas nossas atividades cotidianas.

Agora, não podemos nos iludir achando que a aposentadoria das sacolinhas plásticas é a panaceia que garantirá o futuro das próximas gerações. O modo de produção capitalista, no qual vivemos, demanda um perpétuo crescimento econômico, o que não é compatível com um planeta de recursos finitos.

Mas, aparentemente, o senso comum da classe média acolhe com um otimismo exagerado essas iniciativas “homeopáticas” (me perdoem os adeptos da homeopatia) em prol do meio ambiente: adoção de papel reciclado, redução da emissão de comprovantes em papel pelos bancos, abandono das sacolinhas plásticas, etc. E nem se dá conta do caráter controverso dessas medidas.

Tomando o caso das sacolinhas plásticas como exemplo, a cobrança pelo uso destas, no fim das contas, apenas penaliza o cliente que não dispõe de um automóvel para fazer as compras: quem tem carro pode colocar as compras numa caixa e levar embora; quem não tem, deve achar um meio de acomodar tudo numa sacola, bolsa ou mochila, e depois fazer seu malabarismo no transporte público. Ou seja, é uma medida que acaba estimulando ainda mais o uso do transporte individual motorizado, causa de grandes problemas de circulação urbana e de poluição atmosférica.

No entanto essas iniciativas “ecológicas” de efetividade questionável apresentam uma virtude ímpar. São capazes de aplacar a consciência do “cidadão de bem”, de expiar um sentimento de culpa. O ambientalismo de ecobag, como diz Zizek, apresenta-se como uma forma de consumo da culpa, nas palavras de Isleide Fontenelle. O resultado disso é que o consumismo, postura que exige sempre mais de um planeta finito, se vê liberto da culpa que lhe é inerente, já que agora ele se traveste de “consumo responsável”.

Desse modo, ao deixar a sacolinha plástica de lado, o “cidadão de bem” também se livra da culpa por consumir. Assim, pode continuar consumindo à vontade, sem ter o peso na consciência de que está penalizando o meio ambiente e, ao mesmo tempo, acreditando que está contribuindo para o futuro das próximas gerações. Ledo engano.

Gente descartável

Quando se pensa que não pode haver nada mais terrível que a ação truculenta PM e a insensibilidade do governo tucano (municipal e estadual) e do judiciário estadual diante do drama das famílias despejadas — insensibilidade que poderia ser chamada de “ação entre amigos” — , eis que nos deparamos com as manifestações de apoio à reintegração de posse e contra a população massacrada do Pinheirinho.

Uma amostra das manifestações a que me refiro pode ser encontrada no ótimo Tumblr Classe Média Sofre. O que é comum nessas manifestações da “classe média sofredora”, ou desses “cidadãos de bem” arquetípicos, é: a completa desconsideração do contexto social em detrimento dos interesses próprios (diga-se de passagem, interesses da maior relevância — atenção, estou sendo irônico); a defesa do cumprimento da lei pela lei; a criminalização da pobreza; e, como não poderia deixar de ser, a invocação dos tão batidos bordões “eu pago impostos”, “não sustento vagabundo”, “trabalhei para ter tudo o que é meu”, e outras afirmações que mostram uma capacidade de observar a realidade que não vai além do próprio umbigo.

Pois bem. O corolário dessa visão de mundo da “classe média sofredora” é que tratar aquela gente realmente sofrida do Pinheirinho como lixo não abala a consciência desses “cidadãos de bem”. Afinal, para eles, trata-se de “gente descartável”: um simples ônus para os “bons pagadores de impostos”.

E essa concepção de “gente descartável” é algo da maior gravidade. Não fosse essa distorção moral da realidade as grandes barbaridades da história da humanidade, do Holocausto nazista ao genocídio de Ruanda, jamais poderiam ter ocorrido. Não fosse a “naturalização” de uma condição sub-humana, seria inconcebível promover o extermínio ou o deslocamento em massa de seres humanos.

Concluindo…

Ao comparar esses dois fenômenos, a preocupação com o uso de sacolas reutilizáveis e o completo descaso com a “gente descartável”, salta aos olhos um gigantesco paradoxo: por um lado, procura-se deixar de lado as sacolinhas plásticas, a fim de preservar o meio ambiente e, no fim das contas, garantir o futuro das próximas gerações; por outro lado, a gente pobre do Pinheirinho (e de muitas outras favelas, ocupações, acampamentos pelo Brasil e pelo mundo) é tratada como lixo, despejada no meio da rua, entregue a própria sorte, tendo não apenas o futuro mas o próprio presente negado — nesse caso, ninguém se preocupa com o futuro dos filhos do Pinheirinho.

Concluindo, acho que é impossível falar de consciência ambiental sem que se tenha um mínimo de sensibilidade social primeiro. Afinal, qual a finalidade de querermos prolongar a existência humana sobre a face da Terra, se não para que nossos descendentes possam viver num mundo mais justo? Se é para que as injustiças se perpetuem, é melhor que um meteoro nos atinja em cheio e acabe com tudo!

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2 Respostas para “Sacolas reutilizáveis e gente descartável

  1. essa foi uma das propostas mais demagógicas de kassab. usar sacolas biodegradáveis, é pior, pois usa produtos para alimentação ou tira terras para cultivos. sacolas de plastico são reutilizáveis ou reciclados.facilitam nossas vidas capitalistas. retira-las não favorece a ecologia, pois vamos usar sacos de plásticos de qq. maneira. melhor investir em lixo seletivo, mas isso custa dinheiro e o kassab quer usa-lo para fortalecer seu partido. então, vamos ao fácil e ainda ganhar fama de bonzinho. é o mesmo ponto de vista qdo as empresas particulares tiram facilidades de seus funcionários, dizendo ser a favor da sustentabilidade, mas a gente sabe que é para poupar trocados. se quisesse ser sustentável se instalava em ediícios sustentáveis (painel solar, reaproveitamento de água, etc que é mais caro)

  2. Muito boa a sua analogia, a sua reflexão: um murro na cara de todos nós!

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