Desabriga, mas não mata!

Há pouco tempo atrás, no início do mês, o governador Geraldo Alckmin foi elogiado por Paulo Maluf. “Um governador com ‘G’ maiúsculo”, foi o elogio.

Há elogios que nos deixam lisonjeados. Mas, dependendo de quem vem o afago, deveríamos mesmo é nos preocupar. Se tivesse algo de Social ou Democrata (ou Social-Democrata), Alckmin estaria preocupado. Mas não parece ser o caso. Aliás, o atual governador demonstra várias afinidades com Maluf.

Maluf, político conhecido pelo modus operandi “rouba mas faz”, também se destaca pelo conservadorismo. “A ROTA na rua” é um de seus bordões de campanha eleitoral favoritos.

O atual governador de SP já mostrou em inúmeras ocasiões que adora “brincar de polícia”. Qualquer problema é ocasião para empregar a força — bem ao estilo da República Velha, em que a questão social era caso de polícia. A última ocasião foi na desocupação do Pinheirinho, depois da qual 9.600 pessoas ficaram desabrigadas. Ou seja, cumpra-se a decisão judicial; danem-se os problemas sociais.

Ao agir dessa maneira, sem a menor consideração pelo direito à moradia das famílias expulsas do terreno, o governador do estado ressalta o cumprimento das leis como algo inescapável. Ora, por que a imprensa, que acha essa justificativa tão cabível no caso do Pinheirinho, critica tão virulentamente as execuções por apedrejamento no Irã, se essas execuções são apenas o cumprimento das leis daquele país? Não sei por que, no caso do Irã, os direitos humanos são lembrados…

Não bastasse a ênfase no cumprimento das leis, o governo estadual e a prefeitura de São José dos Campos salientam o fato de não ter havido mortes durante a desocupação. Fato bastante questionável, diga-se de passagem, uma vez que várias testemunhas afirmam a ocorrência de 3 a 7 mortes durante a ação policial. Mas as informações são desencontradas e ainda não se tem certeza disso.

Mesmo considerando que a ação de reintegração de posse tenha ocorrido sem vítimas fatais, isso não significa que inúmeras atrocidades não tenham sido cometidas e direitos humanos desrespeitados.

Logo de cara, fica evidente o uso desproporcional da força. Ou é normal que um efetivo de cerca de 2.000 homens da tropa de choque, 2 helicópteros, 220 viaturas, 100 cavalos, 40 cães, além de um blindado sejam mobilizados para uma retirada pacífica de moradores de uma área? Pois se os moradores foram alvo de bombas de efeito moral e balas de borracha dentro do centro de triagem instalado pela prefeitura o governador ainda fala que vai apurar a ocorrência de abusos… (aliás, recomendo fortemente a leitura do post do Rafael Tsavkko, que trás uma excelente cobertura, com fotos e vídeos, do que realmente ocorreu no Pinheirinho, sem os filtros da mídia.)

O governador ainda fala em apurar a ocorrência de abusos

Em seguida, o fato de deixar 9.600 pessoas sem ter para onde ir. Muitas pessoas tiveram que se instalar nos abrigos (eufemismo para campos de concentração) oferecidos pela prefeitura municipal, nos quais não há mínimas condições para acolher os desabrigados. Outras pessoas, por sua vez, foram despachadas para seus estados de origem — a velha lógica do “problema transferido, problema resolvido”. Há ainda os mais afortunados, que contam com a solidariedade de amigos e parentes.

E, para piorar a situação, a imprensa não teve livre acesso ao Pinheirinho e aos abrigos para retratar a situação. Exceção feita, claro, à toda-poderosa Rede Globo, que cobriu a operação policial in loco, junto com os PMs, presenciando a desocupação desde o início. O mais curioso de tudo nessa história é o silêncio da mídia — tão preocupada com qualquer iniciativa de controle social — diante desse claro cerceamento da liberdade de imprensa.

Frente a tudo isso, Alckmin e seus asseclas (principalmente o prefeito de São José, o sr. Eduardo Cury) estão cada vez mais parecidos com Maluf.

Maluf, pelos idos de 1989, deixou escapar a frase “estupra, mas não mata!”. Ainda que depois tenha tentado se justificar, essa sentença ficou marcada entre as “pérolas” que disse durante sua carreira, denotando seu caráter claramente conservador.

Agora, a atitude de Alckmin e Cury na desocupação do Pinheirinho — atitude cínica diante de todo o sofrimento que está sendo infligido àquela gente já tão sofrida do Pinheirinho — parece dizer: “desabriga, mas não mata!”

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