Daniel e os leões: a tática do brother expiatório

“Se você está tranquilo, é porque já encontrou em quem colocar a culpa.”

A frase acima, que você não encontrará em nenhum manual de autoajuda ou em alguma coletânea de ditados populares do mundo, se não é brilhante do ponto de vista moral, ao menos retrata fielmente o que costuma acontecer na nossa tão imperfeita realidade.

É, por exemplo, o desdobramento do caso do suposto estupro no BBB12. Como disse na atualização do post anterior (que tratava da acusação de abuso sexual), parece que a Globo desistiu de tentar abafar o episódio e agora aposta na tática do bode expiatório (ou seria brother expiatório? — me perdoem o trocadilho).

Pedro Bial, apresentador do reality show, num tom solene e com uma expressão séria informou que o participante Daniel havia sido eliminado por ter apresentado um comportamento inadequado, que infringia o regulamento do programa (tão inadequado que só foram perceber dias depois…). Logo em seguida, trocando a expressão séria por um sorriso no rosto, sentenciou: “o espetáculo tem que continuar!” Agora que temos um culpado, podemos seguir em frente, tranquilamente.

Com essa eliminação do agora vilão Daniel, a Globo não apenas tirou o dela (e de seus patrocinadores) da reta como também saciou a sede de vingança popular contra o possível estuprador. Em que pese o fato da presunção de inocência, juridicamente falando, a eliminação do programa por parte da emissora do Jardim Botânico é um veredicto de condenação contra o rapaz — condenação que ocorre antes da apuração do caso. Quando vivemos numa sociedade do espetáculo, ter o “filme queimado” corresponde ao ostracismo. Mesmo que futuramente seja provada sua inocência, sua imagem já está comprometida. E Daniel foi jogado aos leões, sem piedade, para não prejudicar o show.

A solução mais honesta para o caso, a meu ver, seria interromper o programa até que tudo fosse devidamente esclarecido. A interrupção daria tempo para que um debate público se instalasse a respeito dos direitos da mulher na sociedade brasileira, em oposição ao machismo que é dominante em nossa cultura. Além disso, ninguém seria culpado antes da hora e da devida apuração. Comprovada a culpa de Daniel, ele poderia ser devidamente punido como um cidadão de um Estado de Direito — e não sumariamente punido por um aparelho midiático com um histórico questionável.

Mas o que importa a imagem, a honra pública de alguém, não é mesmo? Além do mais, debater é muito chato, não? Pois já temos um culpado, o que mais falta? O espetáculo tem que continuar! Time is money!

Pois bem, vamos para a prova do líder!

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Uma resposta para “Daniel e os leões: a tática do brother expiatório

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