A miséria do espetáculo e o espetáculo da miséria

Mais um ano começa, cheio de velhas notícias.

Pra variar, chuvas torrenciais e as tragédias decorrentes: inundações, cidades devastadas, perdas materiais, mortos e feridos.

Pra fugir um pouco da rotina, o poder público se manifestando para os mais pobres na forma do arbítrio e da violência, como na remoção dos dependentes químicos da cracolândia, no centro de São Paulo.

Mas não é apenas o conteúdo dessas notícias que é recorrente. Elas também são apresentadas numa forma que tem se tornado predominante: a da espetacularização da miséria.

Não sei o que me deixa mais indignado quando vejo essas reportagens sobre as tragédias provocadas pela chuva: se a própria tragédia, que expõe os moradores das regiões atingidas aos dramas da miséria humana — a perda de bens adquiridos com sacrifício, do lar, de entes queridos — ; ou se a atuação de alguns repórteres, que não desistem de sua entrevista (eufemismo para tortura psicológica) até obter uma lágrima dos olhos do entrevistado, a revelar a miserável condição em que este se encontra depois de perder praticamente tudo o que tinha. Toda essa carga emotiva talvez renda alguns pontos a mais de audiência ao telejornal, já que os telespectadores, membros da sociedade do espetáculo, estão ávidos por consumir alguma emoção fornecida pelo espetáculo da miséria.

E essa mesma situação mostra toda a miséria do espetáculo. Pois problemas extremamente sérios, que nos afligem todo ano, e mesmo cotidianamente, são abordados com uma simplicidade quase leviana. Também, o que esperar do noticiário fast food? Difícil seria ele apresentar um teor informacional elevado, quando sua intenção nada mais é do que entreter o cidadão de bem. E, porque não, “formar opinião”: uma verdadeira produção em série de argumentos e visões de mundo estereotipados.

Miséria de uns, espetáculo de outros. Foto: Reinaldo Marques/Terra

Vejamos, por exemplo, a desocupação da cracolândia. Os grandes veículos de comunicação, de maneira geral, têm louvado as ações do governo do estado e da prefeitura, uma vez que elas contribuiriam para a revitalização daquela região central na cidade de São Paulo. A violência empregada para atingir tal objetivo, bem como a ineficácia desse procedimento policialesco, no entanto, não entram na pauta. Afinal, o Estado está protegendo o “cidadão de bem” dos “maus elementos”. E basta essa narrativa maniqueísta meia-boca para justificar as violações contra os direitos humanos e os excessos cometidos nessas ações. O grande público, acostumado ao espetáculo hollywoodiano, logo encontra seus mocinhos e bandidos e, assim, “forma sua opinião”, ficando do “lado do bem”. Questões centrais como o interesse na valorização imobiliária daquela região, não são abordadas nem tangencialmente.

Do mesmo modo, quando se trata das tragédias causadas pela chuva, logo se vai em busca de um culpado: a falta de planejamento, governos corruptos, maracutaias políticas, e por aí vai. Se o culpado tiver nome e sobrenome, melhor ainda — que o diga o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, ao que tudo indica, eleito pela imprensa como o bode expiatório da catástrofe. Tão logo um culpado apareça e, de preferência, seja punido, o apetite da massa faminta por um espetáculo será saciado.

E a massa de espectadores nem se dará conta de que os problemas noticiados nem passaram perto da solução. Ou algum grande veículo midiático ousou associar a expansão desordenada das cidades à ganância desmedida dos especuladores imobiliários, que levou à ocupação de áreas de risco como as encostas e várzeas dos rios?

Aposto que se algum governante, convencido de que a causa das catástrofes pluviais é a falta de planejamento, resolvesse “planificar” a expansão imobiliária logo seria taxado de ditador. Afinal, para que o espetáculo agrade às multidões, é preciso que o enredo não seja muito complexo. Se tiver um mocinho, vá lá, o público sempre aprecia um bom moço. Mas o que não pode faltar mesmo é um vilão, para quem a fúria da multidão possa ser direcionada.

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