O velho futuro e o novo passado

Todo santo dia o sol se levanta a leste e se põe a oeste. Não é diferente em 1º de janeiro: é só mais um dia que sucede o outro.

Mas o calendário novo, pendurado na parede, nos lembra que a Terra deu mais uma volta em torno do astro rei — que mais um ano se passou.

Diante dessa constatação, muita gente se empenha em fechar as contas do ano velho, tentando avaliar as perdas e ganhos dos últimos 365 dias. Uns ficam contentes ao constatar o saldo positivo. Outros, não tão afortunados, lamentam o fato de terem ficado no vermelho.

Mais do que olhar para trás, a mudança de ano estimula as pessoas a mirar o futuro. Ano novo que se preze não começa sem seus planos, seus projetos, seus sonhos, suas promessas e suas esperanças.

O futuro, contudo, incerto que é, escapa aos nossos olhos de simples mortais que somos. Resta-nos a possibilidade de imaginá-lo, de contemplá-lo com os olhos do nosso pensamento.

Sendo assim, todo futuro que se realiza já nasce velho: ele já existiu algum dia em nossa imaginação. Ele já foi previsto, isto é, visto anteriormente (pré-visto). O mesmo se dá com as leis da Física: por meio delas é possível prever o que acontece quando um sujeito dorme debaixo de uma macieira; se ele acorda com uma maçã caindo na cabeça, não há nenhuma novidade nisso.

De modo que, sinceramente, prefiro poupar o ano que começa dos meus planos. Só tenho planos na medida do necessário. Só tenho projetos com prazos de validade condizentes com esse mundo doido em que tudo que é sólido desmancha no ar. Prefiro deixar o futuro, na medida possível, desembaraçado das amarras da previsibilidade. Em suma, não faço questão do velho futuro.

Ao invés disso, prefiro deixar espaço para me surpreender com os novos significados que a minha experiência adquire com o passar do tempo. É como uma partida de Tetris, que se modifica a cada nova peça que entra em jogo. Às vezes, o que nos parecia bom passa a nos desagradar. Às vezes, o inverso. As novas experiências que se somam às mais antigas podem modificar completamente o sentido da nossa narrativa, a que chamamos vida.

De modo que, se posso esperar alguma coisa de 2012, é que daqui a um ano eu possa me surpreender com meu novo passado.

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