Brazilian Way of Life

Dia desses fiquei sabendo que o Brasil ultrapassou o Reino Unido, assumindo a 6ª posição entre as maiores economias do mundo.

Tomado por um certo ufanismo patriotário, digno de narrador esportivo que exalta as conquistas do Brasil-sil-sil, confesso que fiquei com uma pontinha de orgulho da ascensão tupiniquim.

Mas logo lembrei que não se tratava de competição esportiva alguma. E que o tamanho de uma economia, ou seja, a quantidade de riquezas produzidas, nem sempre quer dizer melhoria na qualidade de vida.

E isso ficou claro quando hoje, caminhando calmamente pelas ruas da minha cidade natal, Jacareí, quase fui atropelado. Não, eu não estava tentando atravessar a rua. A calçada estava em obras e eu tive que me desviar. Foi só colocar o pé no asfalto que uma moto surgiu na minha frente — o motoqueiro me deu uma fechada, estacionando a moto. Logo atrás de mim, um carro avançava sobre a calçada, sem o menor constrangimento de fazer do passeio público um estacionamento para o seu brinquedinho. O pedestre, esse cidadão de segunda categoria, que se vire.

Aliás, o trânsito é a maior expressão de que há algo errado com o nosso “progresso”.

Sim, pois o automóvel ainda é o maior símbolo da modernidade capitalista: a potência do motor a explosão, a velocidade, o encurtamento das distâncias, em suma, a promessa da liberdade ilimitada. Uma máquina que não pode existir sem colocar em movimento toda uma massa de forças produtivas e de relações sociais de produção.

Essa longa fila de carros é culpa do “progresso”

De modo que a massificação do automóvel, infelizmente, não me parece revelar qualquer tipo de democratização, pelo contrário. Alguém pode me acusar de elitista, mas sem razão. Isso porque não estou assumindo um discurso reacionário, a la Luis Carlos Prates, que põe a culpa de todas as mazelas do trânsito aos pobres que finalmente conseguiram comprar um carro.

O buraco é mais embaixo: o próprio automóvel é o problema. Como já dizia André Gorz, o veículo motorizado individual foi, desde os primórdios, um meio de transporte essencialmente burguês: por um lado, vende a ilusão de uma liberdade individual ilimitada; enquanto por outro, coloca os indivíduos em constante oposição, cada um vendo o outro como mero obstáculo para a realização do seu próprio objetivo. Além disso, trata-se de um meio de transporte que se baseia na lógica do privilégio. Pois eu só posso me mover mais rápido que os outros se apenas eu tenho um carro — e a via livre pela frente. A partir do momento em que todo mundo dispõe de um carro, ninguém se move: estamos todos no mesmo congestionamento.

Fico lembrando do meu tempo de menino, em que lamentava o fato de que Jacareí não tinha viadutos, shopping centers, grandes supermercados… Parecia que eu vivia num rincão “à margem do progresso”. Ainda mais quando a grama da vizinha São José dos Campos parecia tão verde: além de tudo isso que minha cidade não tinha, eles tinham a Embraer, a GM, o CTA — e um montão de carros.

Hoje quando vejo o “progresso” chegando à minha cidade natal, com seus incontáveis carros e motocicletas e afins, fico pensando que eu era feliz e não sabia: não vivia numa cidadezinha qualquer de Drummond; tampouco vivia num inferno motorizado, em que não se pode andar na rua sossegado.

Mas o que é que estou praguejando? Graças ao “brazilian way of life”, hoje somos a 6ª economia do mundo. Consumamos até não poder mais! Eis o 11º mandamento.

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7 Respostas para “Brazilian Way of Life

  1. Eu creio que o carro tem seus problemas objetivos e etc, mas que sua utilização deve ser analisada do ponto de vista do individualismo.

    Digo, usar carro não é somente usar carro, mas é a contraposição de usa, por exemplo, ônibus. Se dentro do ônibus o sujeito perde seu espaço, no carro o espaço é somente dele, é ali que ele pode expressar sua individualidade, é alí em que ele é rei. No ônibus, é somente mais um usuário.

    Eu diria que essa situação do carro e do ônibus refletem bem a situação do bloco comunista e do bloco capitalista na guerra fria, sob o discurso democrático-liberal: enquanto, nos países comunistas a individualidade é negada, enquanto há a ditadura do coletivo, aqui, nos países democráticos, cada pode exercer sua individualidade. Enquanto lá você é somente mais um, aqui você tem um nome próprio, aqui você tem espaço próprio.

    Ou seja, o assustador crescimento da utilização dos carros não se deve somente pelo aumento do poder aquisitivo, ou pelos modos diferentes de pagamento, mas sim pela era pós-ideológica em que vivemos.

    Não há discurso anti-carro, simplesmente por que qualquer discurso é falido (ao mesmo tempo em que todos os discursos devem ser respeitados, tolerados, pois vivemos em uma sociedade multicultural e etc). Eu digo, qualquer discurso é falido, desde que não seja o discurso oficial – melhor, todos os discursos são válidos, desde que tenham como base o discurso que já se provou historicamente vencedor: o capitalista, o democrático-liberal.

    Em uma sociedade onde o discurso democrático-liberal é “natural”, de maneira onde os discursos que poderiam destruí-lo já são todos desacreditados, como se livrar da obsessão pelo carro? NUNCA. O carro é a representação perfeita do sujeito pós-moderno, que tem sua individualidade e que não deixa nenhuma autoridade coletiva atrapalha-la.

    Esse individualismo ilusório é tratada muito bem por Adorno, demonstrando a racionalização na indústria cultural tendo como consequência a classificação de todos os grupos em faixas de consumo e a criação do desejo que nunca irá se realizar, sua reprodução e a enganação de tentar fazer do desejo, algo que vem do próprio sujeito.

    Logo, o desejo pelo carro é a disposição ilusória de um individualismo reproduzido ideologicamente como sendo a “essência” humana, e a diferença dos carros (que, na verdade, é inexiste – todos os carros são iguais, o que muda, significativamente é o status que ele pode afirmar) está própria classificação do sujeito como consumidor. Agora vem o ponto interessante: essa libertação, esse individualismo, nunca será alcançado! Como você colocou bem, o engarrafamento é o exemplo – enquanto a maior concentração de carros acontece nos centros urbanos, enquanto as propagandas prometem uma libertação do mundo racionalizado, o que acontece é exatamente o oposto, o desejo nunca é alcançado! Sempre o sujeito se vê como parte integrante de uma massa nos engarrafamentos, estacionamentos e etc.

    • Sem dúvida: usar o carro não é apenas utilizar um meio de transporte, mesmo porque, como tentei mostrar, nem sempre se consegue chegar aonde se deseja com o veículo — pelo menos nem sempre a tempo.

      Como vc bem colocou, o carro tem tudo a ver com o individualismo. Ainda mais quando o automóvel potencializa a imposição do indivíduo perante seus pares. Tanto que, quando não há um radar ou um fiscal à espreita, o motorista não sente qualquer obrigação de respeitar as leis de trânsito e, portanto, os outros — que para ele são meros obstáculos, impedimentos à sua liberdade ilimitada. De modo que, ao volante, um pacato cidadão pode se transformar num monstro, dando vazão a suas frustrações (do trabalho, da aglomeração urbana, etc.), já que agora ele dispõe de uma força que não lhe é natural — a potência do automóvel.

      O problema é que se por um lado o carro permite almejar uma libertação e uma “afirmação da subjetividade” do indivíduo; por outro lado, quando vamos para as ruas, os indivíduos se anulam mutuamente: não apenas detêm o movimento um do outro, como também aumentam ainda mais a frustração da qual pretendiam se livrar.

  2. Pingback: Carros, Individualismo e Desejo Não Realizado « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Zizek, Louis Althusser, Alienaç

  3. Gustavo Candotta

    Parabéns pelo texto!! Cheguei aqui através de um link no post do Vinicius. Como falei com ele, penso da mesma maneira, tanto que estou com um post engatilhado sobre esse assunto! Vou inclusive colocar um link recomendando seu post também. Só adiciono a esse comportamento do motorista-rei-individualista a cultura do “o cliente tem sempre razão”.

    • Oi Gustavo, valeu pelo comentário!

      Muito interessante essa sua observação sobre a cultura do “cliente tem sempre a razão”.

      Eu acho que essa cultura é, ao mesmo tempo, causa e efeito de opressões: quando o sujeito está do “lado de cá” do balcão, como atendente, ele está sendo constantemente interpelado pelo cliente — tal como pelo seu patrão — para que todas as suas exigências sejam atendidas, mesmo que descabidas; e, quando está do “lado de lá” do balcão, agora como cliente, acaba reproduzindo o mesmo comportamento de interpelar o atendente — até como uma forma de exteriorizar sua frustração, já que na situação anterior ele não podia contestar o cliente.

      Com relação a boa parte dos motoristas se dá algo parecido: prontamente interpelam os outros por suas infrações, muito embora, assim que podem, desrespeitam as regras que deveriam valer para todos.

  4. Gustavo Candotta

    Exatamente!!
    Pegando seu texto e a cultura brasileira, o texto do Vinicius e o individualismo idealizado e essa ideia de que todos nós somos ou fomos clientes e o “cliente tem sempre razão”, e pense no seguinte sofismo subconsciente:

    Ora, eu compro algo quase todos os dias, então eu sou sempre um cliente, e um cliente (que é rei) tem sempre razão, logo eu tenho sempre razão!

    As pessoas no trânsito (juntamente com as causas citadas por vocês) sentem que sempre têm razão, pois no dia a dia a cultura do consumismo afirma isso o tempo todo.

  5. Pingback: O cliente-rei e o trânsito | Pensando com os meus botões

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