Generosidade e perversidade

Estamos à véspera de mais um Natal.

E lá vão as pessoas atrás dos presentes, dos pinheirinhos, dos Papais Noéis e congêneres, das guirlandas e outros ornamentos, dos comes e bebes… e toda essa correria ao ritmo de jingle bells e outras canções tão comuns nessa época (felizmente aquele CD da Simone com músicas de Natal parece ter sido esquecido).

E entre a orgia consumista e a histeria coletiva com os compromissos de fim de ano, parece surgir um sentimento de compaixão no coração dos homens e mulheres de boa vontade. Todo ano tem uma campanha de arrecadação de brinquedos usados, de doação de alimentos, de venda de cartões de Natal para entidades assistenciais e por aí vai. Como as pessoas ficam boazinhas no Natal! Seria o espírito natalino?

Quando eu era um sujeito otimista, — e isso não faz muito tempo — , eu era capaz de acreditar que a bondade no coração das pessoas um dia poderia melhorar o mundo. Mas, como eu disse, todo ano eu vejo se repetirem essas campanhas assistenciais para que os necessitados tenham um Natal mais feliz — ou, pelo menos, menos miserável. Pelo visto, a generosidade natalina não é suficiente para solucionar os males sociais, já que sempre há um número considerável de necessitados dependendo da compaixão alheia.

Estou com isso querendo dizer que todas essas campanhas são um lixo? Não, pois não sou um adepto do quanto pior melhor. Tenho consciência de que para algumas pessoas essa ajuda, recebida dessas almas benevolentes, pode ser o único motivo de alegria em meio a tantas dificuldades.

Agora, não posso ignorar uma certa perversidade em toda essa generosidade — além da já mencionada ineficácia na transformação do quadro social. Mas como algo feito com boa intenção pode assumir um caráter perverso? Como já dizia aquele ditado: de boas intenções o inferno está cheio.

Quando o presente de Natal é um presente de grego

Em primeiro lugar, há que se pensar qual o lugar desse “espírito de solidariedade” em meio a uma sociedade marcada pelo individualismo e pela competição. Seria essa mudança um milagre de Natal?

Não sou tão otimista para acreditar nisso. Antes, me parece que se trata de um protocolo, de uma demonstração de respeito a uma tradição (a esse respeito, o Vinícius escreveu um post muito interessante). E, talvez, mais que isso. Slavoj Zizek demonstrou como as corporações têm lucros por se associar com causas de caridade. Num capitalismo em que a imagem — num sentido amplo — é tão fundamental para o processo de valorização, nada melhor do que uma empresa ter uma imagem de socialmente responsável — não importa que nas suas práticas cotidianas ela não seja assim tão boazinha. E uma boa oportunidade para mostrar essa face benevolente certamente é o Natal.

A outra coisa que tem de ficar clara é que, como já havia apontado Marcel Mauss no seu Ensaio sobre a Dádiva, toda dádiva recebida causa uma obrigação implícita de retribui-la. De modo que só pode haver uma relação simétrica entre doador e donatário se eles conseguem, ao longo do tempo, se estabelecer como parceiros de troca. Ou seja, só quando aquele que recebeu o presente puder, num momento seguinte, retribui-lo e de devedor passar a credor do obséquio.

De modo que, por meio dessa generosidade natalina, os necessitados se inserem numa relação assimétrica com seus doadores. Os necessitados se veem como eternos devedores, já que não encontram condições de retribuir o dom recebido — salvo raras exceções. E assim, aquele que recebeu o presente se coloca num patamar inferior em relação ao doador. Há algo de humilhante nessa benevolência.

Perdoem-me se eu tiver estragado a festa de alguém. Não foi essa a minha intenção. Minha intenção foi apenas de mostrar que enquanto vivermos segundo a lógica da desigualdade, a generosidade andará de mãos dadas com a perversidade.

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