O marco zero da liberdade

Suspeitei desde o princípio. E minhas suspeitas se viram confirmadas ontem: fui reprovado em uma disciplina e não me formo neste ano.

Mas não foi uma simples reprovação. Fui reprovado com média zero — um zero retumbante. Um estigma pra eu ver evaporar minhas chances de ter um projeto de mestrado financiado por uma Fapesp da vida.

Estou chateado? É óbvio que ninguém fica contente com uma reprovação. Não nego que tenha ficado uma pontinha de aborrecimento, afinal só faltou essa matéria para concluir o bacharelado.

Por outro lado, dadas as circunstâncias da reprovação, chego a me sentir orgulhoso. “Mas que absurdo, como alguém pode se orgulhar de uma reprovação? Você não tem vergonha não?”, perguntarão indignados aqueles para quem a meritocracia é quase um dado da realidade.

Pois bem. Dado que fui reprovado por não comparecer às aulas, em respeito à deliberação dos estudantes que aderiram à greve dos funcionários técnico-administrativos — que reivindicavam um tratamento isonômico dentro da universidade — , não consigo me envergonhar da minha nota zero.

Mais do que um estigma que pode prejudicar uma possível carreira acadêmica, para mim esse zero é uma insígnia que distingue alguém que ousou se opor ao modus operandi que se instalou na universidade. Um modus operandi que em nada se diferencia daquele que já se instalou em várias esferas da nossa vida, baseado no binômio vigiar e punir (não por acaso, nome de um dos livros mais importantes de Michel Foucault). De um lugar em que a liberdade é condição necessária para a produção do conhecimento, a universidade, nos dias atuais, se submeteu ao capital, convertendo-se num mero apêndice das empresas — uma espécie de terceirização dos “serviços” de pesquisa e desenvolvimento. E estando inserida numa lógica empresarial, não há lugar para uma racionalidade democrática dentro da universidade, mas apenas para uma racionalidade administrativa — inclusive na universidade pública, vide a expulsão de 6 alunos da USP, numa decisão nada democrática do reitor João Grandino Rodas.

De modo que, se essa “desobediência acadêmica” pode ter consequências desagradáveis para mim num curto prazo, estou certo de que a obediência cega seria muito pior: tanto do ponto de vista prático, quanto do ponto de vista moral.

Do ponto de vista prático, se eu simplesmente ignorasse a greve e adotasse a postura de um “aluno exemplar”, estaria tão-somente ajudando a reproduzir essa racionalidade instrumental que está tomando de assalto a universidade — tanto pública quanto privada — , de modo que eu mesmo poderia ser vítima dessa racionalidade num médio ou longo prazo. Veja, por exemplo, o produtivismo acadêmico ao qual os pesquisadores estão submetidos; ou a demissão em massa de professores universitários, promovida por uma grande rede de ensino superior privado, revelando sua clara intenção de precarizar ainda mais o trabalho dos docentes e a qualidade do ensino oferecido.

Do ponto de vista moral — e é o que é decisivo para mim — , se eu continuasse a frequentar as aulas como se nada estivesse acontecendo, estaria demonstrando minha anuência com a injustiça que está sendo cometida contra os funcionários técnico-administrativos — os quais têm recebido reajustes salariais proporcionalmente inferiores ao dos docentes, numa clara demonstração de que são tidos como funcionários de “segunda categoria” dentro da universidade. Assim como os outros estudantes do meu curso, entendi que não era possível ficar indiferente a uma tal conduta desrespeitosa.

Dessa forma, a despeito dos riscos que eu sabia existirem — reprovação entre eles — , decidi agir de acordo com a minha consciência. Decidi exercer a minha liberdade. E quando digo liberdade, não me refiro a um acesso irrestrito a tudo que se deseja — como é a liberdade do homem hobbesiano, ou no individualismo liberal. Quando digo liberdade, me refiro àquela capacidade de darmos regras a nós mesmos e agirmos de acordo com elas, tal como propôs Rousseau. E, ao agirmos de acordo com essas regras, adotarmos uma postura verdadeiramente responsável.

De modo que ser livre, nessa acepção, não significa sempre alcançar o sucesso, tomando o êxito como critério de avaliação. A liberdade vem acompanhada de percalços. Contudo, ao agir com liberdade — e, portanto, de acordo com as regras que elaboramos — não é possível contrariar seus princípios. Ou seja, não é possível fazer algo em que não se acredita.

Em suma, esse zero no meu histórico escolar representa muito mais do que uma reprovação. Não o vejo como uma mancha, mas sim como o marco zero da liberdade.

Anúncios

4 Respostas para “O marco zero da liberdade

  1. Você pegou um ponto que eu gosto muito: a suposta superioridade da meritocracia – que, no fundo, é tão utópica quanto a ilha do Morus.

    A Meritocracia só se mantém como sistema superior dentro da propaganda altamente racionalista propagada já pela ideologia vigente, onde, todos tem as mesmas possibilidades estatisticamente, onde todos podem ser o astro da TV ou o dono da empresa, ou onde os métodos de eficácia são métodos do dia-a-dia e etc.

    • Com a meritocracia o capitalismo resolve boa parte dos seus problemas: por um lado, permite responsabilizar os indivíduos pelo seu próprio fracasso (os pobres são os únicos responsáveis pela sua pobreza); por outro, como vc disse, permite que todos possam sonhar com um sucesso virtual — desde que lutem, se esforcem dentro do sistema — , evitando movimentos de massa e convulsões sociais (pelo menos até a situação ficar insustentável, como nos EUA e na Espanha, com indíces de desemprego elevadíssimos).

  2. Em primeiro lugar, sempre parabenizo aqueles que fazem o que acreditam que é certo, mesmo com prejuízo pessoal.

    Eu tenho opinião diferente da tua em relação à interação entre a universidade e a iniciativa privada. Esta relação pode trazer vantagens para estudantes, bolsistas de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e professores. Este contato pode trazer novos conhecimentos e experiências para os envolvidos e criar novos insights para os pesquisadores de ambos os lados. Evidentemente deve haver espaço e liberdade para pesquisa básica e inédita dentro da academia. O ideal é o equilíbrio entre estas duas categorias de pesquisa.

    • Oi Vicente, obrigado pelo comentário!

      Em relação à interação entre universidade e iniciativa privada, o que me preocupa é a crescente subordinação daquela aos interesses desta.

      De todo modo, respeito a sua opinião, e chego mesmo a concordar com ela quando você diz que o ideal seria um equilíbrio entre a pesquisa básica e a pesquisa aplicada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s