Ungida pela História, condenados pela verdade

Há quem diga que uma imagem vale mais que mil palavras. Não sei se é possível atribuir a qualquer imagem toda essa carga de expressividade. Mas a foto de Dilma Rousseff publicada pela revista Época neste sábado certamente é uma dessas imagens que por si só contam toda uma história. Uma imagem na qual, nas palavras de Paulo Ghiraldelli Jr., se faz presente a estética de Deus.

Dilma, ré da Ditadura. Ditadura, ré da História.

A foto mostra a presidenta, então com 22 anos de idade, num interrogatório sobre seu envolvimento na luta armada, na sede da Auditoria Militar, no Rio de Janeiro. Dilma havia passado por 22 dias de prisão e tortura.

Não bastasse o valor histórico da fotografia, que retrata a guerrilheira que viria a ocupar o cargo máximo da República, chamam a atenção na imagem a composição e suas personagens.

No primeiro plano, Dilma, a ré. Uma jovem vestida com simplicidade: apenas uma camiseta branca e uma calça comprida. Mas no rosto um olhar penetrante, de quem não se abateu com a tortura recebida nos dias anteriores. Uma expressão firme de quem está agindo de acordo com seus princípios e ideais. A julgar pela expressão, parece que é ela quem vai dar algum veredicto.

Em contraste, temos em segundo plano os oficiais que conduziam o interrogatório, garbosos em suas fardas. Mas algo parecia envergonhá-los, a ponto de cobrirem o rosto. Era o rosto da ditadura envergonhada, nas palavras de Eduardo Guimarães. A julgar pelo gesto envergonhado, parece que eles é que são os réus, aguardando alguma condenação.

A postura das personagens dessa imagem parece antecipar o desfecho que a História lhes reservaria: a Ditadura Militar seria derrubada e o país voltaria a um regime democrático, no qual aquela jovem viria a ocupar a presidência da República. E, o que é mais significativo, que os crimes de lesa-humanidade perpetrados por aqueles militares poderiam ser finalmente reconhecidos — que é o que se espera com os trabalhos da Comissão da Verdade.

Isto é, essa foto de novembro de 1970, no auge da repressão da Ditadura, tirada pelos próprios oficiais da Justiça Militar, talvez tenha sido capaz de perscrutar o futuro: Dilma viria a ser ungida pela História; os militares, condenados pela verdade.

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