Black Friday, Cyber Monday e a religião do consumo

Estou surpreso com a adoção do calendário consumista norte-americano pelas lojas virtuais brasileiras neste ano. Importamos, sem traduções, a tal Black Friday e, de quebra, a Cyber Monday. (Imaginem se aquele projeto de lei do Aldo Rebelo, proibindo estrangeirismos, já tivesse sido aprovado: teríamos a sexta-feira negra e a segunda-feira cibernética. rsrsrs)

Não bastava o Natal ser muito mais um feriado ansiosamente esperado pelos comerciantes do que propriamente uma celebração cristã (o que, ano passado, me provocou um desabafo contra o Natal). Agora temos outras datas sagradas no nosso calendário do consumismo. Em nome do emprego, da produção e do capital — amém!

Black Friday: milhares de fiéis consumidores fazem a festa. Em nome do emprego, da produção e do capital -- amém! Créditos da foto: Steve Rhodes

O que não deixa de ser interessante é essa afinidade eletiva entre feriados religiosos e celebrações consumistas. Não por acaso, a Black Friday nos EUA acontece no dia que se segue ao Thanksgiving (dia de ação de graças). De fato, cada vez mais o consumismo vai assumindo a estrutura de uma verdadeira religião, com seus ídolos (as marcas cultuadas: Apple, Nike, Armani, etc.), seus rituais (endividamento, parcelamento, etc.), suas catedrais (os grandes shopping centers) e agora também seu calendário litúrgico. Só faltam os 10 mandamentos! (Se é que eles já não existem.)

O historiador Lucien Febvre, em O problema da incredulidade no século XVI, vê o ateísmo de Rabelais como uma impossibilidade  naquele tempo dominado pela Cristandade. Naquela época, a temporalidade diária era determinada pelo tempo litúrgico (o horário das missas, das orações, etc.). Cada dia do ano era consagrado a um determinado santo. Ou seja, por mais que Rabelais assumisse uma posição contestatória em relação à Igreja, não era possível fugir a essa totalidade cristã e, portanto, assumir um ateísmo no sentido mais radical.

De modo que nosso tempo parece estar impregnado por essa totalidade capitalista. A temporalidade é dada pelo tempo de trabalho. O tempo não pode ser desperdiçado — afinal, tempo é dinheiro. Ou seja, não há mais tempo a ser desperdiçado com o ócio, pois o que vale em nosso mundo é o contrário, o negócio (nec otium). E, para o tempo “livre”, além do entretenimento produzido pela indústria cultural, temos agora também um calendário para nos dedicarmos à nobre tarefa de consumir.

Não que não existam saídas. Mas é preciso pensar em heresias com relação a essa religião do consumo.

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