Gota d’água: o bom mocismo sem um pingo de vergonha

Hoje fiquei sabendo do tal Projeto Gota d’Água. Um movimento que começou a veicular uma campanha contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Em que pese a polêmica envolvendo o gigantesco empreendimento, a intenção pareceria boa não fosse um detalhe: uma campanha recheada de “estrelas globais”.

Uma controvérsia chamada Belo Monte

A construção da usina, que envolve o alagamento da volta do Xingu, é assunto cercado de controvérsias. Há aqueles que defendem a urgência da construção de Belo Monte, a fim de manter o ritmo do crescimento pujante da economia brasileira. Por outro lado, há aqueles que questionam a relação custo x benefício do empreendimento, alegando que o impacto social e ambiental do empreendimento não seria compensado por uma usina que, na maior parte do tempo, não operaria no máximo de sua capacidade.

Particularmente, penso que poderia haver outras soluções para o problema energético brasileiro. Não falo somente de outras fontes de energia, como eólica ou solar (proposta que já está, cá entre nós, virando um lugar-comum — só que eu não acredito que se trate de energias “limpas”). Falo também, e principalmente, de não apenas se pensar na expansão da oferta de energia, mas na redução da demanda: tecnologias mais eficientes, redução do consumo, etc.

Até aí, minha opinião parece ir ao encontro daquele discurso que está na ponta da língua das ONGs do segmento “socioambiental”, da classe média que votou na Marina Silva nas últimas eleições, dos atores da campanha Gota d’Água, enfim, de um ambientalismo que desperta em mim uma profunda desconfiança: um “ambientalismo de boutique”.

A gota d’água pra eu perder a paciência com o ambientalismo de boutique

“Ambientalismo de boutique”

Como já nos idos dos anos 1970 apontou André Gorz, em Dois tipos de ecologia, a defesa do meio ambiente, por si só, não diz nada a respeito do que queremos de fato. Afinal, queremos um capitalismo adaptado às restrições ambientais; ou uma mudança profunda na relação do homem com o ambiente, com a sociedade e consigo mesmo?

O movimento ambiental mainstream, no entanto, parece não ter respondido, nem sequer ter se colocado essa pergunta. Coincidência? Falta de atenção? Ou a pergunta não faria o menor sentido?

O problema, a meu ver, é que o movimento ambiental mainstream se tornou um fim em si mesmo. Da mesma forma que — injustamente ou não — muitos sindicatos são acusados de terem se constituído numa burocracia quase autônoma, afastando-se dos “verdadeiros” anseios dos trabalhadores que deveriam defender, o grande movimento ambiental corporificou-se na forma de ONGs.

E, não custa lembrar, esse tipo de organização proliferou durante a era neoliberal, na qual o Estado foi colocado numa posição quase antagônica em relação à sociedade civil: o Estado, “grade demais e ineficiente”, passou a estar sob constante suspeita de malversação e de má gestão dos recursos públicos. Diante da “ineficiência” do Estado, a sociedade civil organizada (ou seria ONGanizada?) teria que, doravante, ocupar o vazio deixado pelo poder estatal.

E, essa lógica, ao que tudo indica, mais do que nunca se faz presente — o Gota d’Água que o diga. O problema dela é que cria-se a ilusão de que por meio das ONGs é possível intervir na realidade (social, ambiental) sem depender da política — nada melhor num mundo em que se tem asco da política –, garantindo uma gestão mais eficiente dos projetos de intervenção. O que é uma ilusão porque as ONGs não vivem de ar e, como qualquer organização, dependem de recursos — e quadros — para manter sua estrutura de funcionamento. E de onde saem esses recursos? Ironicamente, boa parte vem do Estado. Mas as ONGs, como qualquer entidade privada, não têm preconceitos quanto à origem dos recursos: podem vir também da iniciativa privada (inclusive multinacionais), de organismos internacionais, etc. Desse modo, uma nova finalidade — conscientemente ou não — se inscreve na missão institucional das ONGs ambientalistas: além da defesa do meio ambiente, a defesa dos próprios interesses.

Desse modo, e retomando as ideias de Gorz, vemos que o ambientalismo mainstream se tornou uma peça importantíssima no quadro do capitalismo contemporâneo. Isto é, a causa ambiental pode ter se apresentado no início com um certo potencial subversivo, mas hoje está plenamente integrada ao processo de valorização do capital, em sua forma mais sofisticada. Se, por um lado, as ONGs vivem em busca de recursos para financiar suas atividades; por outro, fornecem uma espécie de “legitimidade verde” ao capital, para que este possa agradar aos “consumidores conscientes” — e, assim, garantir a continuidade de suas atividades lucrativas.

Pensando bem, acho que o movimento ambiental mainstream respondeu àquela questão de alguns parágrafos atrás — e escolheu a primeira opção.

Bom mocismo sem vergonha

Voltando ao projeto Gota D’Água, depois de ter exposto todas as razões do meu incômodo com o ambientalismo mainstream, falemos da minha postura crítica em relação a esse movimento específico.

Primeiro, é muito suspeito que artistas da Rede Globo venham querer dar uma lição de consciência ambiental.

Parem e façam o penoso exercício de assistir televisão, por quinze minutos que seja. Vejam se há algum intervalo comercial em que não há propaganda de automóveis — um meio de transporte, como se sabe, muuuuito sustentável. Duvido que não haja um anúncio de carros em quinze minutos. Principalmente se for no horário nobre. Principalmente se for um anúncio de SUV.

Ah, e do que é mesmo que vive a televisão? Publicidade, eu acho.

Segundo, que venham querer falar de política. Ou melhor, engrossar o coro do senso comum: falar mal da política. Não, eles não se metem com essa sujeirada da política.

Só trabalham para um grupo de comunicação que se consolidou sob a égide da Ditadura Militar, contando com apoio do regime e retribuindo sua “simpatia” aos militares.

Apenas são empregados de um conglomerado da mídia que, desavergonhadamente, fez uma edição do debate presidencial das eleições de 1989 com vistas claras a beneficiar um dos candidatos: Fernando Collor de Mello. E que, anos antes, em 1984, havia tentado esconder a realização de um comício da campanha pelas Diretas Já.

Acho que não são necessários mais exemplos da história de probidade da empresa em que esses cidadãos (ou seriam só pagadores de impostos mesmo?) exemplares trabalham.

Por fim, que venham contribuir para essa “alienação verde”.

Ou seja, para esse ambientalismo que esquece de que o ambiente faz parte de uma abrangente realidade. Não se trata apenas de biodiversidade, mas de soberania nacional, modo de produção capitalista, direito dos povos indígenas, conflitos de interesses, etc., etc.

A versão simplista dos fatos apresentada pela campanha faz parecer que a construção de Belo Monte é um ato de pura idiotice — e não resultado de uma série de disputas políticas. Concordo que o processo de tomada de decisões sobre a construção do empreendimento tem se mostrado antidemocrático. Mas a informação parcial e superficial em nada contribui para um debate de qualidade.

Ah, e por falar em indíos e populações ribeirinhas, acho que não adianta muito poupá-los de Belo Monte e entregar seus saberes tradicionais de bandeja para uma certa empresa de cosméticos, cujo dono compôs a chapa de Marina Silva na disputa presidencial — “3ª via” que caiu no gosto da classe média.

Sinceramente, esse movimento foi a gota d’água pra eu perder a paciência com o ambientalismo de boutique…

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7 Respostas para “Gota d’água: o bom mocismo sem um pingo de vergonha

  1. Vai se foder, eu ia escrever a mesma coisa, huahua.

    Tive que fazer outra coisa pra postar no meu site…

    Cara, é exatamente o oque eu concluo. Além da proposta, é necessário avaliar a linguagem dela. Esse comercial é inteiramente democrático-liberal, dentro da ideologia da ecologia e etc. Só ser contra belo monte não adianta nada, é necessário saber onde está a estrutura ideológica do discurso, pra, dessa forma, evitá-lo .

    • Hahaha! Foi mal aí hein…

      De todo modo, esse caso do Gota D’água entra na mesma lógica dos “neohippies” sobre a qual vc escreveu há alguns dias atrás: é uma apropriação da crítica pelo sistema criticado — ou seja, é preciso mudar pra que tudo continue na mesma.

  2. Pingback: Reblog – Gota d’água: o bom mocismo sem um pingo de vergonha « Cabana de Inverno – Sociedade, Ideologia, Crítica Social, Feminismo, Machismo, Socialismo, Capitalismo, Anarquismo, Vegetarianismo, Comunismo, Marxismo, Slavoj Zizek, Lou

  3. Cara, esses dias, uma amiga minha me falou sobre isso, senti vergonha!!! Logo quando vi, já percebi que não era algo em prol do meio ambiente, afinal, NÉ! aí, hoje vi a crtítica do rafinha bastos, e da comédia MTV, e, resolv procurar no google e achei esse post, ÓTIMO!! E, adorei o blog tbm. sinceramente cara, você é uma pessoa que eu gostaria de levar um papo cabeça! mais além, vou ler um pouco mais desse blog =D

    • Oi Igor,
      Que bom que vc gostou do post!
      Espero ter colaborado com uma visão alternativa das coisas.
      Sinta-se a vontade pra trocar umas ideias, seja nos comentários do blog, no twitter, etc.
      Abraço

  4. Esta campanha é uma campanha vinculada as massas, as massas possuem grande apreço aos artistas da globo, mas se levarmos em consideração a desigualdade social brasileira, é normal que as classes menos abastecidas nutram um ódio a elite burguesa.

    Mas a questão é a globo, devido a sua pseudo-neutralidade não se posicionou em nenhum momento em relação à construção da usina de belo monte. Deve até ter incentivado os atores a participar de tal campanha, mas uma questão que eu levanto é! como esta campanha se reflete na opinião popular? Já ouve campanhas deste tipo no ultimo referendo sobre o desarmamento, a campanha a favor do desarmamento foi mobilizada por atores da globo, qual foi a opinião das massas: “os artistas da globo estão seguros em suas mansões”, ou mesmo quando alunos da USP protestam invadindo a reitoria, a primeira reação das massas é sempre de repudio. Tais campanhas nunca são para obter o apoio popular mas o seu contrario.

    • Eu não tenho ideia de como a “massa” vai receber essa mensagem dos artistas da Globo.
      Mas acho que a parcela mais pobre da população, que tem de se preocupar com a sobrevivência imediata, nem está a par dessa questão de Belo Monte — convenhamos, quando a cobrança vem do estõmago, as outras questões se tornam irrelevantes.
      Agora, o que me preocupa em relação a essa campanha é o apelo que pode ter sobre a classe média: tanto a “antiga” quanto a “nova”.

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