A desocupação da reitoria da USP e a esquizofrenia conservadora

Hoje, por volta das 5h da manhã, 400 homens da PM se dirigiram à reitoria da USP para cumprir a ordem judicial de reintegração de posse. 73 alunos que ocupavam a reitoria foram presos, sob acusação de depredação do patrimônio público, descumprimento de ordem judicial, crimes ambientais (!) e, o que é mais impressionante, por formação de quadrilha.

Não bastasse o uso mais que desprorcional da força — tropa de choque, cavalaria, cassetetes, balas de borracha, helicóptero –, o governador Alckmin sugeriu que os estudantes presos tivessem uma “aula de democracia”. Ora, depois de tão brilhante demonstração de civilidade por parte da polícia, fica difícil ensinar mais alguma coisa sobre democracia (evidentemente, estou sendo irônico).

Aula de democracia da PM de Alckmin na USP

Que democracia?

Aliás, talvez haja algo a ensinar. A questão é: de que democracia estamos falando?

Se estivermos falando daquela democracia, que teve início na pólis grega, e que inspirou pensadores como Hannah Arendt e Habermas a pensarem a política como uma prática comunicativa, por meio da qual as pessoas estabelecem de maneira racional as regras que regem seu convívio e os seus projetos para o futuro; bem, nesse caso, quem precisaria aprender um pouco sobre democracia seria a própria reitoria da USP e, com ela, as polícias e o próprio governo do Estado, que parecem não apreciar muito a prática do diálogo.

Agora, se estivermos falando de uma democracia presente no senso comum conservador, segundo a qual o valor de um homem é avaliado pelo seu valor de mercado, a situação muda de figura. De acordo com essa democracia de mercado, todos somos iguais na medida em que podemos nos vender no mercado. E a lei e a ordem têm como finalidade última garantir o direito de cada um desfrutar em paz da sua propriedade — sem ter de ser importunado pelos pobres e inconvenientes (leia-se marginalizados).

A esquizofrenia conservadora

E assim diria o “cidadão de bem”:

“Esses maconheiros e comunistas que infestam os campi universitários só atrapalham aqueles jovens ordeiros e empreendedores que, diligentemente, buscam se qualificar para o mercado de trabalho. Além disso, esse bando de vagabundos pouco contribui para o registro de patentes, digo, para a pesquisa científica aplicada — ou seja, que pode render algum dividendo para alguma empresa privada. Aliás, eles deveriam aplaudir de pé a mudança no perfil da universidade: de uma “torre de marfim”, antro de gente ociosa e fonte inesgotável de críticas descabidas, ela vai paulatinamente se transformando num pólo de inovação!

Por isso, a PM deve mesmo estar presente em todas as universidades, garantindo a paz e a segurança, para o pleno funcionamento dessas novas fábricas de diplomas e patentes. Que se cerquem as universidades! Que se expulsem os vândalos! Que se faça um resizing no quadro de funcionários! Que se façam parcerias a rodo com a iniciativa privada (essa sim eficiente)! Alvíssaras para os reitores que, acima de tudo, se mostrem grandes gestores!”

Quem ocupa o que?

E é de acordo com essa lógica esquizofrênica e conservadora que os alunos que ocupavam a reitoria da USP foram detidos sob acusação de depredação do patrimônio público. Patrimônio público sim, mas que há algum tempo não está efetivamente a serviço do público.

Vimos que a mesma direita que vocifera contra o movimento estudantil — em que pesem algumas ações equivocadas desse movimento — é quem aplaude iniciativas que apontam no sentido da privatização da universidade pública.

Ou seja, se danificar câmeras de segurança e pichar paredes é um crime imperdoável; utilizar toda a infraestrutura acadêmica — laboratórios, bibliotecas, técnicos e pesquisadores — para produzir um conhecimento que será apropriado privadamente por alguma empresa é visto como a grande virtude a ser buscada pela universidade. Infraestrutura esta, diga-se de passagem, custeada pelo dinheiro público (no caso das universidades estaduais paulistas, por recursos do ICMS, imposto que, como se sabe, tem uma incidência proporcionalmente maior sobre a população de menor renda) e colocada a serviço da acumulação privada. Penso que esse desvio na finalidade da universidade pública — que deveria servir a toda a sociedade — é que se constitui num crime.

De modo que, se tomarmos esse desvio de finalidade como uma forma de usurpação do patrimônio público da universidade, foi por meio de sua depredação que esse patrimônio, de certo modo, voltou a ser público!

Que a USP e as demais universidades públicas não precisem ser depredadas para voltarem a ser — efetivamente — públicas. Para isso, é preciso desocupar a sociedade dessa esquizofrenia conservadora.

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2 Respostas para “A desocupação da reitoria da USP e a esquizofrenia conservadora

  1. Belo texto, eu preciso fazer um sobre a desocupação.

    É interessante ver que a universidade, atual formadora de especialistas, não de cientistas, é, neste momento, dita “pública”, quando, no fim das contas, ainda é privada, em seus interesses.

    • Oi Vinicius, obrigado pelo comentário.

      Aliás, não só a universidade pública é alvo dessa lógica privatista, como também o transporte e até a saúde (o governo de SP queria aprovar um decreto destinando 25% dos leitos do SUS para planos de saude!).

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