Lula e Jobs: dois gênios e duas medidas

Arrisco-me a uma comparação que pode parecer inusitada, se não absurda. Mas acho que entre o ex-presidente Lula e o ex-CEO e fundador da Apple Steve Jobs existem mais semelhanças do que pode parecer à primeira vista. Apesar disso, a imagem que nossa imprensa nativa (como diz Mino Carta) construiu desses personagens não poderia ser mais divergente. Qual a explicação para esse fenômeno? Ou minha suposição estaria errada? É o que proponho investigar no decorrer deste post.

Dois gênios, duas medidas e uma imprensa mesquinha

Dois gênios

Antes, para que fique claro, entendo por gênio um sujeito dotado de habilidades extraordinárias, capaz de realizações inalcançáveis por pessoas normais. Ou seja, capaz de realizar coisas que um simples mortal seria incapaz.

Para mim, tanto Lula quanto Jobs são gênios. Mas minha opinião é irrelevante. Entretanto, não sou só eu que o diz. A imprensa especializada, setores da academia, a opinião pública, enfim, a sociedade em suas várias manifestações tende a reconhecer a genialidade desses dois personagens.

No caso de Lula, um exemplo do reconhecimento de sua genialidade política foi o título de doutor honoris causa concedido pelo instituto francês Sciences Po — Lula foi o primeiro latino-americano a receber tal homenagem. Segundo o diretor do instituto, Richard Descoings, Lula teria “mudado a imagem do Brasil”. Ainda mais expressiva que o título concedido pelo o instituto francês foi a taxa de popularidade com que o ex-presidente encerrou seu mandato, de 87% de aprovação.

Jobs, por sua vez, ficou conhecido como o responsável por mudar a história da computação pessoal. Os computadores, até então máquinas pouco amigáveis, tornaram-se indispensáveis nos lares dos consumidores de todo mundo com as criações da Apple de Jobs: primeiro o Apple II, depois o Macintosh, e, já a partir da década de 1990, o iMac, iBook, iPod, iPhone e, por fim, o iPad.

Um detalhe curioso, mas extremamente relevante, é que tanto Jobs quanto Lula não tiveram formação universitária. O que não os impediu de mudarem o mundo em suas áreas de atuação. A trajetória dessas duas figuras, no entanto, não foi isenta de controvérsias.

O primeiro governo de Lula foi marcado por um dos maiores escândalos de corrupção do país: o escândalo do mensalão, no qual haveria um esquema para a compra de votos de parlamentares em troca de apoio ao governo.

Ademais, Lula foi objeto de críticas tanto da direita quanto da esquerda. Os setores mais conservadores acusavam-no de pouco capaz — muito em função de não possuir formação universitária e domínio de uma língua estrangeira –, sendo o sucesso de seu governo um mero reflexo de uma conjuntura internacional favorável ao Brasil. Já os setores mais à esquerda acusaram Lula de fazer pactos com forças conservadoras, historicamente antagônicas, evitando confrontar diretamente os interesses das elites dominantes do país — evitando, por exemplo, a realização de uma reforma agrária que fosse de encontro aos interesses dos latifundiários.

O caráter inovador de Jobs, por sua vez, muitas vezes foi questionado. O filme Pirates of Silicon Valley conta como, nos primórdios da Apple e Microsoft, essas empresas se valeram da cópia de ideias para emplacar seus produtos. A interface gráfica, o grande atrativo do Macintosh da Apple, foi uma ideia originalmente desenvolvida pela Xerox e reproduzida por Jobs e sua equipe. Mais tarde essa ideia seria apropriada pela Microsoft de Gates.

Além desse questionamento da originalidade dos produtos da Apple, veio à tona nos últimos anos uma polêmica envolvendo as péssimas condições de trabalho nas linhas de montagem dos produtos da marca norte-americana. Uma onda de suicídios assolou a Foxconn, empresa responsável pela montagem de produtos da Apple na China. Expostos a jornadas de trabalho intermináveis, muitos operários preferiram tirar suas próprias vidas.

Tudo isso para mostrar que, embora gênios, nem um nem outro foram unanimidades. Inegável é que ambos tiveram um notável talento e um inigualável carisma para que as pessoas acreditassem naquilo que fizeram e, desse modo, conferissem realidade aos seus feitos. Lula foi capaz de convencer brasileiros e estrangeiros de que seu governo mudou o país. Jobs foi capaz de convencer pessoas de todo mundo que a Apple havia mudado sua relação com os computadores.

Duas medidas

Depois de ter exposto os motivos pelos quais acredito que hajam semelhanças entre Lula e Jobs, quero mostrar a forma assimétrica como ambos são tratados por um segmento em particular: a grande imprensa brasileira.

Se por um lado o político brasileiro é tratado como um fanfarrão, como um grande sortudo pela conjuntura internacional favorável durante o seu governo — ou seja, que o sucesso do governo se deve exclusivamente à fortuna, sem um pingo de virtude –; o ex-CEO da Apple, após sua morte e mesmo antes dela, era retratado como o visionário, o empreendedor, o inovador — enfim, o gênio da tecnologia. É curioso ver como a mesma imprensa lida de forma tão diferente com dois sujeitos que, reconhecidamente, conseguiram realizar grandes feitos em suas áreas — com todos os poréns já mencionados.

Essa assimetria fica ainda mais evidente agora, quando o ex-presidente Lula teve um câncer na laringe diagnosticado. Jobs, como se sabe, foi vítima de um câncer no pâncreas. No caso do ex-presidente, alguns comentaristas da grande imprensa se prontificaram a explicar a doença como decorrência de uma vida “desregrada”, dos maus hábitos de beber e fumar — ou seja, o esforço tem sido no sentido de culpar a vítima pela doença. No caso de Jobs, o que se via era uma apreensão com a doença do ex-CEO. Afinal, como nosso mundo poderia viver sem ele, o guru da inovação e da tecnologia? Ademais, enquanto fixava um olho no estado de saúde de Jobs, a imprensa dirigia o outro olho em direção ao mercado (como ele reagiria diante da doença do gênio da informática).

Uma explicação

Diante desses fatos, estou convencido de que nossa imprensa sofre de um agudo complexo de vira-lata. Se falamos de um gênio nascido em terras estrangeiras — de preferência, nos EUA –, nossa imprensa nativa não hesita em lhe render glórias, em que pesem todos os argumentos que poderiam colocar em dúvida sua genialidade. Por outro lado, quando se trata de um gênio nascido nestas terras brasileiras, o olhar que a grande imprensa lhe dirige é um olhar de desconfiança e, talvez, de um certo rancor — ainda mais se ele for nascido no Nordeste. Desconfiança de que algo que preste seja feito abaixo do Equador. Rancor de que alguém fora dos cânones de uma “elite branca” (para usar a expressão do ex-governador de SP, Cláudio Lembo) possa sobressair e ser reconhecido.

Enfim, sou levado a concluir que nossa grande imprensa tem uma ponta de nostalgia dos tempos do Brasil colônia.

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Uma resposta para “Lula e Jobs: dois gênios e duas medidas

  1. Lula é maravilhoso! Fantástico! um deus! um gênio! e um gostosão! Eu daria a minha bunda pra ele e todo esquerdista faria isso pq o progressismo é coisa mais deliciosa da história de toda a humanidade do universo. É incrível e fabuloso. Ninguém pode com eles. Gênios, gênios, gênios… amo todos vocês, gostosões!

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