Agências de rating — ou, os oráculos do deus-mercado

Lula, quando presidente, eternizou o bordão “nunca antes na história desse país”. Sempre que queria salientar as realizações do seu governo, lá vinha ele com essa expressão, que se tornou marca registrada. Mas o “nunca antes” pode também ser motivo de constrangimento. Nessa situação se encontra Barack Obama. Pela primeira vez na história, o rating — a classificação de risco — dos títulos da dívida pública americana foi rebaixado. A agência de classificação de risco Standard&Poor’s, na noite da última sexta-feira, anunciou o rebaixamento do conceito de “AAA” para “AA+”, com viés negativo.

É bem verdade que esse “feito” não deve ser atribuído exclusivamente ao presidente norte-americano, mas também aos congressistas republicanos e democratas. A dificuldade de se chegar a um acordo sobre a elevação do teto da dívida americana, com pouca disposição para negociar de ambos os lados; assim como a solução pouco efetiva trazida pelo acordo para a crise fiscal norte-americana foram os principais motivos alegados pela S&P para determinar o rebaixamento do conceito. E nem adiantou o Tesouro dos EUA apontar um erro de US$ 2 trilhões nos cálculos da agência de rating.

O fato é que todo o mundo já via as dificuldades dos EUA lidarem com seus problemas fiscais, bem como a fragilidade da recuperação da economia americana após a crise de 2008. O que mudou é que o rebaixamento do rating  por uma renomada agência de risco dos EUA (uma agência chinesa já havia feito esse rebaixamento antes) parece ter autorizado esse diagnóstico. E, desse modo, permitido àqueles que estavam calados que deixassem o silêncio e criticassem a política econômica de Washington. Agora a crítica não estava baseada no prognóstico de algum lunático antiamericano, mas passou a fundamentar-se num dos grandes pilares do sistema financeiro internacional: as agências de rating — ou, os oráculos do deus-mercado.

Os oráculos de Wall Street não anunciam um futuro brilhante para os EUA. Foto: Benjamin Dumas

E as críticas à política econômica americana vieram de várias partes. Primeiramente, da própria S&P, que expressou sua insatisfação com o acordo para a elevação do teto da dívida. Além das dificuldades político-institucionais do processo de negociação, o fato de o acordo não ter previsto a elevação de impostos pesou negativamente na avaliação.

A China também não deixou de manifestar sua insatisfação com Washington. Os chineses, maiores detentores de títulos da dívida americana, criticaram duramente a política econômica baseada no endividamento. E mandaram um recado para os EUA de que “os bons tempos acabaram”. Além disso, ganha força a ideia de se substituir o dólar como moeda padrão para as trocas internacionais. Essa substituição significaria a ruína de um dos pilares que sustenta a hegemonia norte-americana no mundo, que vem da capacidade de emitir a moeda que ficou no lugar do padrão-ouro.

Os representantes do governo norte-americano, por sua vez, tentam minimizar o rebaixamento da avaliação de risco. Segundo eles, os títulos da dívida americana continuarão sendo alvo da procura dos investidores de todo o mundo, em virtude da sua elevada liquidez.

O fato é que os EUA terão de enfrentar a capacidade das agências de rating fazerem previsões que se autorrealizam. O rebaixamento do rating da dívida americana significa um risco maior de que esse compromisso não seja cumprido. É bem verdade que o rating “AA+” ainda é extremamente elevado. No entanto, se esse rebaixamento significar uma maior dificuldade de os EUA colocarem seus títulos no mercado, logo ela implicará numa elevação dos juros que remuneram esses títulos. O aumento de juros, por sua vez, além de aumentar as despesas do governo com o serviço da dívida (pagamento de juros), pode aprofundar ainda mais a tendência de que a economia americana entre em recessão. Em se confirmando essa tendência recessiva, é muito provável que a diminuição da atividade econômica se reflita numa menor arrecadação de impostos pelo governo americano. Com despesas crescentes e receitas decrescentes, não é preciso dizer, aumenta o risco de calote.

Wall Street mandou seu recado a Washington: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Conseguirão os EUA provar que os oráculos do deus-mercado estavam errados, e retomar as rédeas do seu destino? Quem viver, verá.

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