Há um ano, vegetariano

Há um ano, ou pouco mais do que isso, me propus a seguir uma dieta vegetariana — ovoláctea, para não ser muito radical. Naquela época eu estava num dilema sobre a viabilidade de me tornar vegetariano. Hoje, posso dizer que é difícil, mas possível.

Um prato pode ser saboroso sem carne. Na foto, acelga, grão de bigo e arroz doce vegan. Foto: La blasco

As motivações continuaram as mesmas

As motivações que me levaram a mudar a dieta são basicamente as mesmas. Continuo fazendo isso como uma forma de recusar o paradigma do quanto mais, melhor e, portanto, de valorizar a frugalidade. Não quero dizer que temos que ser pobres para alcançar a felicidade. É um pouco diferente disso. Na verdade, o contrário.

Isso porque, penso eu, existem duas formas de se pensar a riqueza: ou significa ganhar mais dinheiro, ou ter controle sobre suas necessidades. Ou seja, por um lado, o caminho do quanto mais, melhor; de outro, o do isso me basta — termos que André Gorz utiliza na sua crítica da razão econômica.

O problema do primeiro caminho é que vivemos num mundo em que nada é suficiente. É sempre preciso mais. Estar satisfeito com alguma coisa pode parecer obsceno. Um celular, por exemplo. Ter um aparelho antigo, que serve perfeitamente para fazer e receber chamadas, mas que não tem touchscreen, GPS, internet e mais sabe lá o que pode denunciar que o dono desse celular não está de acordo com os padrões de consumo. E, portanto, de acordo com os padrões da sociedade — já que estamos numa sociedade de consumo. Como é humanamente impossível acompanhar o ritmo frenético da obsolescência programada e da obsolescência percebida, o consumo traz uma satisfação passageira e uma frustração quase permanente. O que se tem, afinal, não é mais riqueza. Ao contrário, assistimos ao fenômeno que Ivan Illich batizou de a modernização da pobreza.

Já o segundo caminho, o da autolimitação, corresponde à tentativa de se ter controle, ou ao menos consciência, das próprias necessidades. Se as necessidades puderem ser limitadas, ou ao menos bem conhecidas, será mais fácil de atendê-las e, assim, sentir-se satisfeito. Eis o ponto importante. Como perceber a experiência vivida como fonte de riqueza se ela não nos traz satisfação alguma? Assim, a limitação das necessidades, ao invés de significar privação, pode ser o caminho para um enriquecimento da experiência. Se temos menos necessidades materiais, trabalhar desenfreadamente perde todo o sentido, abrindo a possibilidade de se empregar o tempo assim liberado em outras atividades.

Sobre as dificuldades

Como eu já antevia no começo da minha dieta, a grande dificuldade que encontrei foram as barreiras culturais, numa sociedade em que a carne ocupa um papel central na alimentação. De fato, consumir carne significa status. Não por acaso, o aumento do consumo de carne se apresenta como um dos grandes símbolos da ascensão social da nova classe média no Brasil.

Aliás, aqui cabe um parêntese: quero deixar bem claro que não tenho nada contra a nova classe média. Pelo contrário, sou defensor de uma distribuição de renda justa e a nova classe média é fruto de uma melhoria no processo distributivo. Contudo, só acho que não devemos nos iludir com uma melhoria nas condições de vida que se apresenta muito mais no âmbito do consumo. É preciso ir muito além disso para alcançar a justiça social.

De todo modo, como eu ia dizendo, a grande dificuldade que encontrei para ser vegetariano foi cultural. Desde as brincadeirinhas, do tipo “agora você só come mato?”, até alguns constrangimentos em eventos sociais, em que você acaba recusando o prato principal e todo mundo olha espantado.

A mesa, como lugar de confraternização, às vezes não é lá muito plural. Mas isso é apenas o reflexo de uma sociedade que tem certa dificuldade de conviver com a diferença. O diferente é tolerado, desde que ele fique lá e eu aqui. Reunir todo mundo com suas diferenças num mesmo espaço, incluir o outro, ainda é um desafio.

Mas nem tudo está perdido. E nem tudo é tão difícil quanto parece. Não apenas porque com o crescimento da adesão ao vegetarianismo e ao veganismo também cresce a oferta de produtos e restaurantes voltados para esse público. Mas também porque, ao contrário do que eu esperava, as pessoas parecem a cada dia aceitar melhor essa dieta alimentar. O grande desafio, mesmo, é ter coragem de começar e perseverança de continuar. Acho que estou conseguindo.

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