Me dá um cigarro

O cigarro tornou-se um mal necessário para mim. Acho que comecei a fumar estimulado pelas advertências do Ministério da Saúde. Isso mesmo. Fumar dá câncer. Fumar causa impotência. Fumar provoca enfisema pulmonar. E outras ameaças nesse sentido.

Mas, no meu caso, nada é tão ameaçador quanto o futuro. O que me espera? Provavelmente o desemprego. Não sendo tão pessimsita, quem sabe um trabalho de cão, do tipo atendimento em telemarketing ou em cadeia de fast food. Mas, é possível ser mais otimista: posso me tornar um “cyberescravo”, preso por um Blackberry ou por um gadget qualquer, com o qual me torno disponível 24 horas por dia, sete dias por semana — e viva a servidão voluntária moderna!

E tanto trabalho pra quê? Quem sabe pra me aposentar com um salário mínimo, insuficiente para pagar as despesas com o plano de saúde ou com os remédios. Para, depois de décadas de trabalho, passar meus últimos dias num hospital, tratando um câncer incurável qualquer — enquanto os médicos fingem que meu caso tem solução e eu finjo que acredito. Para ver que meu trabalho, meu know-how, minha pessoa são completamente desnecessários, dispensáveis, obsoletos.

Deixa disso, me dá um cigarro! Foto: Justin Shearer

Claro que eu nem seria capaz de perceber isso se eu fosse um consumidor exemplar. Se eu me devotasse, do fundo do meu coração, ao consumismo, provavelmente estaria salvo dessa miséria espiritual. O consumo salva, meu filho. Para que pensar no futuro? Se eu consumisse como mandam as escrituras, as imagens, os vídeos e todos os apelos midiáticos da publicidade, teria tanto gozo no presente que sequer me importaria se não houvesse amanhã. As divídas, ah, as dívidas, para que pensar nelas? Sempre existe um cartão de crédito para te amparar num momento de dificuldade.

Ademais, a ética do consumo é simples e acessível a qualquer um: basta abrir uma Coca-Cola e integrar o exército dos bons. Afinal, os bons são maioria — ruins são  os que lidam com política. E os bons, além de tomar Coca-Cola, só consomem aquilo que faz bem pra saúde (como o refrigerante, que nem tem açúcar — nem valor nutricional — nas suas versões zero) e pro meio ambiente (como  os carros “verdes”, que nem poluem — nem causam congestionamentos).

Por falar em saúde, virtude fundamental do devoto consumidor — ou consumidor devoto, acho que dá no mesmo — , deve-se praticar atividade física regularmente, ter uma alimentação balanceada, frequentar os médicos com regularidade, tomar suplementos alimentares, ter uma postura relaxada, enfim, seguir todas as recomendações dos profissionais da saúde e dos gurus da autoajuda. Se você não consegue dar conta de tudo isso num ambiente de competição exacerbada por seu lugar ao sol no mercado de trabalho, sinto muito meu amigo, o problema é com você, seu incompetente!

Evidentemente que essa patranha uma hora deixa de fazer sentido, e você se dá conta de quanto está sendo enganado. Por mais que você consuma, nunca consegue diminuir sua frustração. E aí vem a depressão. E com ela, duas opções: Prozac e seus congêneres, ou encarar a realidade. Escolhi a segunda. Não digo que não me arrependo. Mas advirto que a realidade pode ser absurdamente sem sentido. Nessas horas, você chega a pensar em se matar. E foi isso que eu decidi. Só que preferi me matar em prestações a fazê-lo à vista, de uma vez. Por isso, parafraseando o Oswald de Andrade — tema da FLIP deste ano — , deixa disso camarada, me dá um cigarro.

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