Japão: a sociedade do risco em ato

Desventuras em série

O terremoto de 8.9 graus na escala Richter (revisado agora para 9 graus), seguido por um tsunami, que atingiu a região nordeste do Japão (Tohoku) expôs a fragilidade humana diante dos riscos oriundos de eventos naturais extremos. Ainda que o Japão, acostumado aos tremores de terra, tivesse desenvolvido toda uma tecnologia — seja em termos de técnicas construtivas, seja em termos de treinamento da população para esse tipo de situação — para minimizar as consequências desastrosas de um terremoto, não se dispunha de estratégias de reação diante do tsunami.

Para piorar o quadro, o abalo sísmico provocou o mal funcionamento do sistema de refrigeração de reatores das usinas nucleares de Fukushima, ocasionando sérios problemas como a explosão nas instalações de três reatores na usina de Fukushima I. Os técnicos responsáveis tentam desesperadamente conter o aquecimento e consequente derretimento do núcleo dos reatores, seja por meio da liberação do vapor produzido para aliviar a pressão no interior do núcleo, seja mediante a tentativa de resfriamento destes com água do mar.

Inicialmente, as autoridades japonesas afirmavam que o acidente nuclear tinha atingido uma magnitude mediana: 4 numa escala que vai de 1 a 7. Hoje, porém, diante de nova explosão no reator 2 de Fukushima I, indicando o derretimento parcial de seu núcleo, a magnitude do acidente foi revista para o grau 6 (o acidente nuclear de Chernobyl, em 1986, atingiu o nível máximo). A verdadeira dimensão do desastre, contudo, só deve ser conhecida futuramente.

A sociedade do risco

Talvez ninguém tenha caracterizado melhor a sociedade contemporânea como a sociedade do risco do que o sociólogo alemão Ulrich Beck. De modo extremamente resumido, Beck entende que uma vez superado o problema da carência material mediante a industrialização e a consequente produção de riqueza em larga escala, dada sociedade se vê às voltas com o problema da produção de riscos. A mesma industrialização que permitiu a superação da pobreza, agora pode apresentar-se como ameaça, portadora que é de riscos muitas vezes invisíveis (e também inodoros e insípidos). E esses riscos que não podem ser apreendidos imediatamente pelos sentidos tornam-se objetos de controvérsias entre especialistas, os únicos considerados capazes de “ver” a existência ou não de riscos — de modo que a existência ou não de riscos depende em alto grau da opinião dos experts. Instalam-se também conflitos sociais quanto à distribuição dos riscos (mais ou menos reconhecidos), ou melhor dizendo, à exposição a esses potenciais riscos: provavelmente, grupos de maior renda não instalarão suas moradias na vizinhança de uma central nuclear. Ainda que, dada a abrangência desses riscos — a dispersão da radioatividade pelos ventos, por exemplo — , todos estão em maior ou menor graus expostos a eles.

O Japão parece representar bem esse paradigma. O país, até há pouco tempo a 2ª maior economia do mundo (recentemente superado pela China), atingiu um elevado patamar econômico após um grande esforço de reconstrução no período pós-2ª guerra mundial. À expansão econômica do pós-guerra correspondeu a expansão na demanda por energia. E da necessidade de produzir mais energia, conjugada com as particulares condições geográficas do país — um arquipélago no meio do Pacífico — , a energia nuclear veio a ocupar uma posição de destaque na matriz energética japonesa, com uma participação de cerca de 30%.

Se num primeiro momento a energia nuclear figurou como um pré-requisito para a produção de riquezas, certamente  após esse acidente nuclear de Fukushima a energia nuclear, mais do que nunca, será vista como uma fonte quase inesgotável da produção de riscos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s