O que é isso, presidenta?

Um dos assuntos de maior repercussão na blogosfera nos últimos dias tem sido, sem sombra de dúvida, a ida da presidenta Dilma Rousseff — e não apenas a presidenta, mas também representantes dos outros dois poderes da República — à celebração dos 90 anos da Folha de São Paulo.

Sim, a mesma Folha que emprestou seus veículos para transportar os opositores da ditadura militar diretamente aos torturadores dos órgãos de repressão. O mesmo jornal que ao comparar a ditadura brasileira com a de outros países latino americanos chamou-a de “ditabranda”, por entender que esta teria sido menos violenta (esquecendo que o autoritarismo daqueles anos já consistia, ele mesmo numa grande violência contra a democracia). Sim, a Folha que, com base num e-mail apócrifo, publicou na primeira página uma ficha falsa daquela que viria a ocupar o cargo mais importante da República. Aquela que, sob o argumento de uso indevido da marca, moveu uma ação judicial contra o blog humorístico Falha de S. Paulo (agora, Desculpe a Nossa Falha), ainda que, qualquer cidadão em perfeito juízo jamais fosse capaz de confundir o blog com uma versão eletrônica do jornal — de fato, apenas uma desculpa para exercer uma censura togada. Em suma, o jornal que se notabilizou pelo apreço duvidoso pela democracia e pela liberdade de expressão; pelo mal disfarçado papel de partido de oposição (um dos membros do PiG); e pela qualidade jornalística questionável.

"Ao comemorar o aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo, este grande jornal brasileiro, o que estamos celebrando também é a existência da liberdade de imprensa no Brasil." (Discurso de Dilma na celebração de 90 anos da Folha)

Diante de todo esse “prestígio” do nonagenário jornal é que a visita da presidenta e das autoridades da República causou tanta estranheza blogosfera afora. O jornalista Leandro Fortes foi um dos primeiros a reagir, em seu artigo Dilma na cova dos leões, expressando sua indignação não com a presença de Dilma no evento, mas com a tentativa de associá-la com um gesto em defesa da liberdade de expressão:

Digo o menor dos pecados porque o maior, o mais grave, o inaceitável, não foi o de submeter a Presidência da República a um duvidoso rito de diplomacia de uma malfadada estratégia de realpolitik. O pecado capital de Dilma foi ter, quase que de maneira singela, corroborado com a falsa retórica da velha mídia sobre liberdade de imprensa e de expressão. (grifo meu)

De fato, por todos os “bons serviços” prestados nesses 90 anos de história, cá entre nós, a Folha de São Paulo também não me parece lá um bom exemplo de liberdade de expressão. Esse jornal parece muito mais preocupado com a liberdade da imprensa — dizer aquilo que bem entende, construir sua própria verdade, isenta de qualquer responsabilidade — do que com a liberdade de imprensa — autonomia para abordar os assuntos que lhe pareçam de interesse, numa linha editorial própria, mas tendo como princípio a responsabilidade com a verdade factual.

Ainda outras reações acaloradas vieram da blogosfera. O ativista e líder do MSM — Movimento dos Sem Mídia — , Eduardo Guimarães, manifestou sua decepção com o episódio, com o post Desalento. Um dos mais atuantes militantes da blogosfera na defesa de Dilma diante dos ataques baixos lançados contra a então candidata — vindos predominantemente da velha imprensa — , Eduardo mostrou-se fortemente abatido não apenas com o gesto da presidenta — que tantas vezes foi atacada pelo mesmo jornal — como pela reação contrária às críticas que ele fez à presença de Dilma no evento da Folha.

De fato, parte da esquerda se exime de criticar a presidenta pelo ocorrido, entendendo nessa visita aos “ex-algozes” uma manobra estratégica para “desarmar” a velha mídia nativa. Se esse argumento tem fundamento, só o futuro dirá. Uma das análises mais completas e equilibradas do episódio foi feita por Luis Nassif. Nassif corrobora a tese de uma “aproximação estratégica” de Dilma com a velha mídia, visando a enfraquecer o palanque mais forte da oposição (o próprio PiG). No entanto, o jornalista entende que o governo Dilma falhou ao não ter ainda buscado uma aproximação com os movimentos sociais e com a blogosfera que se empenhou na militância de campanha, o que, como parece evidente, deve ter alimentado um certo ressentimento.

De todo modo, a despeito desse gesto “desastrado” da presidenta, não parece ser o caso de os movimentos sociais e a blogosfera de esquerda abandonarem o governo dos trabalhadores. Mas certamente, também não é o caso de se calarem e assumirem uma postura acrítica. Sempre que um episódio estranho como esses ocorrer, devem estar prontos a perguntar: “O que é isso, companheira?”. Ou melhor: “O que é isso, presidenta?”

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