Clerks — ou, crônicas de uma geração perdida

Um dia desses assisti a dois filmes que há muito eu tinha curiosidade de ver: Clerks (título em português O Balconista, 1994) e Clerks II (O Balconista 2, 2006). O que havia me chamado a atenção era o slogan presente no poster de Clerks II: with no power comes no responsibility (sem poder não há responsabilidade). Claramente uma brincadeira com a frase que se tornou celébre no filme do Homem Aranha, quando o tio do herói, prestes a morrer diz: with great power comes great responsibility (com um maior poder vem uma maior responsabilidade).

Os dois filmes têm um enredo semelhante — se bem que cada um com suas próprias situações bizarras. Ambos contam um dia na vida de uma dupla de balconistas: Dante e Randal. O primeiro é um sujeito mais pacato e preocupado com os clientes, mas que vive às voltas com seus problemas com as mulheres. O segundo é o elemento desestruturador, que vive arranjando confusões e encrencas, cujas consequências recaem sobre Dante. O que eles têm em comum é a amizade desde os tempos do colégio, além do fato de estarem conformados com suas tranquilas vidas — ou nem tanto assim — de balconistas. Tirando os acontecimentos extraordinários — por exemplo, no primeiro filme eles vão ao velório de uma ex-namorada de Dante; no segundo, eles saem para andar de kart, depois de serem humilhados por um ex-colega do colegial –, a rotina dos balconistas é marcada por brincadeiras, conversas sobre filmes, sobre o comportamento dos clientes e, é claro, um atendimento ou outro.

A primeira impressão que se pode ter, a princípio, é de que esses filmes são mero besteirol. Mas, tomando-os um pouco a sério — quando isso é possível — pode-se perceber que eles não contam apenas a história de dois personagens caricatos. Os filmes tratam da história de toda uma geração, nascida e criada a partir da metade da década de 1970, adotando a ironia como recurso crítico.

Clerks: Dante e Randal discutem questões políticas de Star Wars

De fato, a partir da metade da década de 1970, o capitalismo passa por uma grande metamorfose. Passa-se de um capitalismo sob a égide do Estado de Bem-Estar Social, no qual os conflitos entre o capital e o trabalho são mantidos sob controle, para um modelo no qual o Estado abandona esse papel de mediação, tornando mais frouxo o pacto entre os empresários e trabalhadores, conferindo maior liberdade para a atuação do capital — modelo que o geógrafo marxista David Harvey, em seu livro A condição pós-moderna, chama de acumulação flexível. A virada dos anos 1970 para os 1980 é marcada pela ascenção do neoliberalismo, representado nas figuras da primeira-ministra britânica Margaret Tatcher e do presidente americano Ronald Reagan. Ambos serão lembrados pelas políticas desestatizantes, bem como pela desregulamentação das leis trabalhistas.

Ao mesmo tempo em que o Welfare State era atacado, as grandes corporações optaram por internacionalizar suas atividades, sobretudo as atividades de produção, em busca de mão-de-obra mais barata, além de legislações ambientais e trabalhistas mais lenientes — ou mesmo inexistentes. Como consequência, os países centrais do capitalismo passaram por um intenso processo de terciarização da economia, isto é, de migração das atividades do setor industrial (secundário) para o setor de serviços (terciário). Agora, lembremo-nos que tudo isso ocorre depois da consolidação das classes médias urbanas, fortemente apoiadas pelo Estado de Bem-Estar Social, que lhes possibilitava uma vida segura e confortável.

Clerks II: Star Wars ou Senhor dos Anéis?

E é nesse cenário que nascem e crescem nossos balconistas. Que expectativas eles podem ter em relação à vida quando os empregos bem remunerados e seguros tornaram-se coisa do passado? O que eles podem esperar do futuro quando se veem impelidos a passar o resto de seus dias atrás de um balcão de loja de conveniência ou de um restaurante de fast food — sendo mau remunerados e nunca sabendo se terão emprego no dia seguinte? É bem verdade que um ou outro sujeito da sua geração pode se destacar — como acontece no segundo filme, em que um ex-colega deles se torna um milionário da internet. Mas, via de regra, as perspectivas não são lá muito animadoras.

O que fazer diante desse panorama? Pegar em armas e fazer uma revolução? Não, isso hoje em dia parece antiquado. Talvez seja melhor tentar esquecer a pequenez da vida cotidiana e tentar aceder à grandeza dos espetáculos, do cinema, do mundo do entretenimento. Em suma, tentar evadir-se da realidade por meio da fantasia. Ou mesmo, por meio das drogas (Jay e Silent Bob estão sempre por perto).

Nesse sentido, não consigo ver Clerks como mero cinema de entretenimento, para passar o tempo. Pode até não ter sido essa a intenção de quem produziu os filmes, mas para mim Clerks tem um valor histórico: são as crônicas de uma geração perdida.

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