O Paraíso da Infância

Postado originalmente em 08/01/2009, no blog Mumonzeki.

Hoje, numa pausa para o almoço, me deparei com uma reflexão. Extenuado pelo trabalho, me perguntei por que eu sentia a labuta como um castigo. De imediato, lembrei do livro do Gênesis, da passagem em que Adão e Eva são expulsos do Jardim do Éden:

E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela: maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. […] No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado: porquanto és pó, em pó te tornarás.
(Gn 3:17,19)

Naquele momento, percebi a semelhança entre o enredo biblíco e o destino manifesto na nossa sociedade contemporânea. Todos nós somos criados para um certo dia deixar o paraíso de nossas infâncias e nos confrontarmos com o mundo real, no qual, nosso sustento depende inevitavelmente de algum tipo de trabalho. Trabalho que, em nossos dias atuais, assume um caráter cada vez mais específico, em decorrência de uma extrema divisão do trabalho. O resultado evidente disso é que aumenta sobremaneira a nossa interdependência e, para satisfazermos qualquer necessidade que esteja fora do escopo do nosso trabalho, temos que acessar o produto/serviço necessário para essa satisfação através de uma relação mercadológica. Ou seja, tornamo-nos incapazes de fazer qualquer coisa por nós mesmos – exceto aquilo que é objeto do nosso trabalho -, ao mesmo tempo em que potencialmente temos acesso a qualquer coisa através do mercado. Em outras palavras, nosso trabalho torna-se cada vez mais estranho a nós mesmos, assim como o fruto desse trabalho. Como resultado, a sentença divina torna-se cada vez mais pesada. Ainda que em escritórios climatizados, realizando um trabalho não-braçal, todas essas comodidades não aliviam o peso desse jugo em que o trabalho se transformou na modernidade.

Apesar de, pelo nosso mundo afora, muitas crianças serem privadas de desfrutar um mínimo de sua infância, me parece evidente que a concepção ideal, normativa, de como deve ser uma vida humana – pelo menos em nossa visão ocidental -, reserva um pequeno paraíso em nossas vidas. Paraíso da infância para o qual, assim como para o Jardim do Éden, não há caminho de volta em nossas trajetórias individuais, pelo menos não neste mundo, em que vivemos. Mas, quem sabe, um dia a humanidade toda volta a ser criança, e a terra, um paraíso.

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