Capitotalitarismo

Capital. Capital fixo e variável. Capital humano. Capital natural. Capital social. Capital cultural. Capital imaterial.

Gestão. Gestão de empresas. Gestão de pessoas. Gestão de carreiras. Gestão do tempo. Gestão do dinheiro. Gestão ambiental.

Mercados. Mercado de trabalho. Mercado de ações. Mercado de commodities. Mercados futuros.

Quem não cuida do networking e do marketing pessoal compromete sua empregabilidade. Ai daqueles que não buscam o contínuo aperfeiçoamento das suas competências, a fim de oferecer excelência nos serviços prestados. A concorrência acirrada do mercado de trabalho não poupará aqueles que não investirem em sua qualificação — no seu capital humano. Afinal, apenas os mais bem preparados estarão aptos a desfrutar do sucesso profissional. E só os profissionais de sucesso podem almejar uma vida com todas as comodidades da  modernidade. Quanto aos perdedores, bem, esses preguiçosos terão o que fizeram por merecer: o desemprego, o subemprego, enfim, os trabalhos precários que não precisem de qualificação. Culpar as empresas pelas mazelas sociais e ambientais? Mas como, se hoje elas adotam as melhores práticas de responsabilidade social e ambiental? Isso é conversa de comunista.

Esse vocabulário e esse discurso, tão comuns nos dias atuais, nos mostram o quanto não vivemos apenas num modo de produção capitalista. Mais do que orientar o modo pelo qual se dá a reprodução material da vida social, o capitalismo chegou ao extremo de ditar a maneira pela qual a realidade é interpretada. Tornou-se hegemonia. Um regime totalitário: o capitotalitarismo.

Wall Street: a "terra santa" do capitotalitarismo

Assim como na Idade Média acreditava-se que as desgraças eram todas provocadas pela ira divina, hoje a praga do desemprego é atribuída aos humores do mercado. Do mesmo modo, se naquele tempo a interpretação da vontade divina era atribuição do clero; nos dias atuais existe um círculo restrito de economistas, detentores de todo um vocabulário e conhecimento herméticos, sendo os únicos capazes de ter acesso à verdade última dos mercados. Se naquela época os que questionavam os cânones da Igreja — os hereges — eram levados pela inquisição à fogueira; no nosso tempo, aqueles que colocam em xeque a crença na capacidade de autorregulação dos mercados logo são rotulados socialistas ou comunistas, e desacreditados (em casos mais extremos, presos, torturados e eliminados) com base na experiência soviética. Se nos idos da Idade Média os servos tinham de cumprir diligentemente suas obrigações para com seus senhores e para com os clérigos, sob pena de arder no fogo do inferno ao descumprirem a ordem divina; hoje, quem não quiser o inferno do desemprego tem que cuidar da gestão da carreira — seguindo os conselhos dos maiores gurus empresariais — , ou então se submeter a todo tipo de subemprego. Por fim, se naquela época a salvação estava nas mãos da Igreja, o que permitia exigir de seus fiéis o pagamento de indulgências; nos nossos dias a salvação se dá por meio do consumo desenfreado, da mais variada miríade de mercadorias.

Essa comparação mostra o quão medieval é a nossa contemporaneidade. De fato, se por um lado, como o próprio Marx reconheceu no Manifesto Comunista, o capitalismo foi capaz de promover radicais mudanças nas estruturas arcaicas do mundo, de uni-lo num único mercado mundial, de impulsionar obras magníficas, de romper com as superstições que constrangiam o homem; por outro lado, o imperativo de se buscar sempre o lucro praticamente anulou o caráter emancipador de todas essas conquistas, conduzindo-nos a uma nova Idade Média, em que tudo se transforma em mercadoria.

É o fim da linha? Creio que não. A esperança teima em não esmorecer. Esperança que um dia nos demos conta de que a realidade é construída por nós mesmos. De que o mercado não é um fim em si mesmo, mas apenas um mecanismo de alocação de recursos da economia. De que a injustiça social é um problema que toca a todos, cuja solução depende da política — e não do mercado. De que o trabalho seja uma atividade por meio da qual o ser humano se realize, e não um mecanismo de exploração e alienação. Enfim, esperança de que um dia criemos uma sociedade em que o livre desenvolvimento de cada um seja a condição para o livre desenvolvimento de todos.

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2 Respostas para “Capitotalitarismo

  1. A Gestão de Carreira consiste em fazer um encaminhamento ao desenvolvimento pessoal e profissional do candidato. São analisados o perfil pessoal e fatores como o cenário externo, as oportunidades existentes e as tendências do mercado.
    O objetivo é auxiliar o profissional, fazendo com que ele não dependa apenas das possibilidades oferecidas pelas empresas. O caminho a ser seguido é determinado pelo perfil do candidato, levando em consideração em qual ponto o profissional está e aonde ele quer chegar. Com base nestas informações são definidas ações para alcançar os objetivos.

    • Que fique bem claro, não tive qualquer intenção de menosprezar ou desmerecer o trabalho de gestão de carreira.
      Apenas quis destacar o quanto o jargão do mundo do business tem sido incorporado em nosso vocabulário e discurso cotidianos.
      Indício de que as categorias básicas do capitalismo — capital, valor e mercado — dão o tom de nossas vidas.
      Abraço!

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