Escolhas equivocadas — e reafirmadas

Enquanto a mídia dedica boa parte do espaço à tragédia da região serrana do Rio de Janeiro — e com certa razão, haja vista a dimensão dos acontecimentos — , a chuva continua a cair por toda parte na região sudeste. E com ela, vêm à tona os problemas de um processo de urbanização desordenado: enchentes, alagamentos de vias, deslizamentos de encostas, etc. Problemas que derivam principalmente da ausência do Estado: a falta de fiscalização das ocupações urbanas; a inexistência de políticas sobre o uso do solo; a desorganização nos sistemas de atendimento a emergências; apenas para mencionar algumas omissões.

Mas há também aqueles problemas que resultam de escolhas equivocadas colocadas em prática pelo poder público. Não custa lembrar do caos recorrente na cidade de São Paulo durante o período chuvoso do ano. Raquel Rolnik já vem há muito apontando para os equívocos na política de mobilidade da cidade de São Paulo, pautada na expansão da malha rodoviária, sem levar em conta os efeitos negativos da impermeabilização do solo. Equívocos que vêm sendo reafirmados.

A rigor, o trânsito de São Paulo já é um problema sério sem a chuva. Se ela acontece então, a dimensão do problema é elevada à enésima potência. Apesar disso, a frota de veículos cresce diariamente. Eis o preço da escolha de privilegiar o transporte individual motorizado, tão bem descrito por André Gorz, em A ideologia social do carro a motor:

As pessoas se apressaram para comprar carros até que, quando a classe trabalhadora começou a os comprar também, os motoristas perceberam que haviam sido enganados. Tinha sido prometido a eles um privilégio de burgueses, tinham entrado em débito para adquiri-lo, e agora viam que qualquer um poderia também obter um. Qual é o gosto de um privilégio se todos puderem o ter? É um jogo de tolo. Pior, ele coloca todos em posição antagônica contra todos. A paralisação geral é criada por um engarrafamento geral. Quando todos reivindicam o direito de dirigir na velocidade privilegiada da burguesia, tudo pára, e a velocidade do tráfego da cidade cai vertiginosamente – em Boston como em Paris, Roma, ou Londres – abaixo daquele da carroça; no horário do rush a velocidade média nas estradas abertas cai abaixo da velocidade de uma bicicleta.

Em outras palavras, eis o preço de privilegiar o privilégio. Enquanto a mobilidade não for tratada como um direito de todos, dificilmente alguém será capaz de ir e vir sem maiores transtornos. Essa escolha não se manifesta apenas nas grandes obras viárias que sempre aparecem como o grande orgulho dos administradores públicos — só para citar alguns: Rodoanel, ponte estaiada, faixa adicional da marginal, etc.

Exemplo claro dessa política, que não envolve um grama de asfalto, foi o reajuste no preço das passagens de ônibus, que passaram a custar R$ 3,00 em São Paulo. Por um lado, o discurso parece ser unânime em admitir que o transporte coletivo deve ser incentivado, como uma forma de desafogar o trânsito da metrópole. As ações, porém, vão no sentido contrário, encarecendo o preço dessa modalidade de transporte, desencorajando ainda mais o já desencorajado cidadão em adotá-lo — muitos reclamam da demora no tempo de espera, da demora no trajeto, da lotação nos horários de pico. Assim fica difícil convencer alguém a deixar o carro ou a moto na garagem, quando o litro da gasolina está custando por volta de R$ 2,50. E ai de quem tentar se manifestar contra essa medida! Estudantes que se manifestaram contra o aumento foram tratados à base de balas de borracha pela PM paulista.

De todo modo, o que fica evidente é que a insistência na política de privilegiar o privilégio por parte do governo paulista continuará avançando em direção à paralisia total do trânsito de São Paulo. O caos, entretanto, não é inevitável. Trata-se de uma escolha política.

O documentário Soluções para o trânsito, produzido pelo Discovery Channel mostra claramente como a circulação não é um problema insolúvel, desde que seja reconhecido o direito de ir e vir de todos os cidadãos. Vale a pena assistir.

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