Sem açúcar, por favor

Já faz algum tempo que comecei a tomar café puro, sem açúcar. A ausência do adoçante permite que se aprecie a bebida de forma mais completa: o aroma, o corpo, o sabor. A grande dificuldade de se abandonar o açúcar, porém, vem do fato de que nosso paladar não está bem adaptado ao sabor amargo. E eu diria que não apenas o nosso paladar.

De fato, a palavra “amargo”, além de designar esse sabor particular — característico do café — , tem sido usada comumente para indicar um comportamento ranzinza, cheio de ressentimento, enfim, infeliz. A palavra “doce”, por sua vez, costuma ser empregada para qualificar uma pessoa que demonstra ternura, calma, bondade.

O interessante dessa associação metafórica entre um certo paladar e um determinado comportamento é que ela vai muito além das palavras. Com efeito, essa associação repousa num sistema de valores que orienta nossas ações — entre elas, o hábito de adoçar as bebidas amargas (além do café, o chá também) e o “postulado social” de se buscar a felicidade.

Seja no café, seja na vida: sem açúcar, por favor.

Desse modo, uma atitude aparentemente inofensiva como tomar café sem açúcar (se bem que é quase inevitável a estranheza pela maior parte das pessoas) pode abrir caminho para algumas reflexões. Será que, do mesmo modo que descaracterizamos o sabor do café ao adoçá-lo, não descaracterizamos o sentido verdadeiro da vida ao submetê-la ao imperativo da busca da felicidade? Quem sabe, ao buscarmos adoçar artificialmente todos os momentos da nossa vida, não nos tornemos intolerantes ao amargo e, desse modo, não suportemos as frustrações? Ou ainda, não estamos nos tornando insensíveis àquelas pequenas — e verdadeiras — felicidades, insaciáveis em querer a vida cada vez mais e mais doce?

Não sei se essas perguntas farão sentido para a maioria das pessoas, mas para mim, fizeram e fazem todo o sentido. Por isso, decidi tentar viver sem falsas esperanças e sem expectativas desmedidas. Decidi tentar viver um dia de cada vez. Tristes, alegres, com ou sem esperança, do jeito que eles forem. Seja no café, seja na vida: sem açúcar, por favor.

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2 Respostas para “Sem açúcar, por favor

  1. Faz todo sentido sim, Eduardo, gostei muito da reflexão. Deu até vontade de tomar um café agora … sem açúcar, naturalmente.

    abraços,

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