Apostando todas as fichas na blogosfera?

Mal começou o governo Dilma Rousseff — há pouco mais de uma semana — e os grandes veículos de comunicação ligados ao tucanato — os integrantes do PIG (Partido da Imprensa Golpista) ou da mídia nativa (como diz Mino Carta) — já se puseram a tentar criar as primeiras crises políticas. Muito se tem dito sobre os atritos entre PT e PMDB, motivados pela disputa de cargos no governo (de primeiro e segundo escalação, principalmente nas estatais), sobre a qual o PMDB estaria descontente com a proporção de cargos recebida.

Em que pese o fato de que tal atrito na base aliada realmente exista, o que causa indignação com essa leitura de crise propalada pelo PIG é a tentativa deliberada de causar tumulto no recém-iniciado governo Dilma, exagerando na gravidade da disputa. Qualquer um que acompanhe política sabe que a dinâmica do poder se dá na disputa. Nada mais natural que o embate entre duas forças que almejam maior participação nos cargos da administração federal.

Depois, ganham as manchetes os “desentendimentos” entre a presidenta Dilma e o General Elito, do Gabinete de Segurança Institucional, sobre as declarações deste de que o Brasil não teria de se envergonhar da tortura durante a ditadura. Ainda que Dilma tenha sido ela mesma vítima da tortura naquele período obscuro da história brasileira, a presidenta assumiu a continuidade de um governo de coalização, consciente de ter que lidar com a delicada tarefa de conciliar os interesses díspares entre quem estava do lado do regime e quem estava contra ele durante a ditadura militar. Tal decisão ficou evidente na manutenção do ministro Nelson Jobim no ministério da defesa. Mais uma vez, os atritos eram mais do que esperados. E, novamente, foram superdimensionados pela imprensa alcoviteira.

A última do PIG foi o “escândalo dos passaportes diplomáticos”, concedidos a dois filhos do presidente Lula. Ainda que a concessão de tais passaportes seja prerrogativa do Itamaraty, o episódio foi tratado como um exemplo de abuso de poder, da concessão de privilégios indevidos, além de sugerir que de certo modo o ex-presidente continua a exercer sua influência no atual governo. Particularmente não sou adepto de regalias a políticos, mesmo em se tratando de ex-chefes de Estado e de governo. Contudo, o que é revoltante é o tratamento diferenciado que a grande imprensa oferece aos dois últimos ex-presidentes: Lula e FHC (Eduardo Guimarães escreveu um ótimo artigo sobre isso no Blog da Cidadania). Enquanto o primeiro é objeto da fúria da mídia, que não perde uma chance de espinafrá-lo; o segundo é tratado como um grande sábio e exemplo de moral e retidão — ainda que só tenha reconhecido seu filho, fruto de uma relação extra-conjugal, após o falecimento de sua esposa.

 

A blogosfera conseguirá fazer frente ao PIG?

A imprensa tem o dever de denunciar, e sobre isso estou de acordo. Mas essa adoção de dois pesos e duas medidas é que compromete a credibilidade desses veículos de comunicação, demonstrando completo desprezo pelo interesse público — o que vale, no fim das contas, são os interesses particulares dos grandes barões da mídia. Situação que é tão mais grave no caso das concessões de rádios e televisões, que se utilizam do espectro eletromagnético, o qual, no fim das contas, pertence ao povo brasileiro. Diante desses desmandos, o ex-ministro Franklin Martins, nos últimos dias do governo Lula, chegou a elaborar um projeto de marco regulatório da mídia.

O projeto “caiu no colo” do novo ministro das telecomunicações, Paulo Bernardo. Infelizmente, o ministro resolveu “enterrar” o projeto. Bernardo sugeriu que o projeto precisaria ser melhor debatido e analisado. Ademais, enfatizou que a prioridade de seu ministério é o Plano Nacional de Banda Larga, o qual tem como meta universalizar o acesso à internet de alta velocidade a preços populares.

Nada contra o projeto de banda larga, muito pelo contrário. A universalização do acesso à internet sem dúvida permitirá ao brasileiro ter acesso a novas fontes de informação, além de oferecer a possibilidade de que este não seja mero espectador e receptor, mas também produtor de conteúdos. Chego a especular que o governo esteja apostando todas as suas fichas na blogosfera, como um canal alternativo de informação e formação de opinião, como uma força contra-hegemônica em relação ao PIG.

A pergunta que fica é se o governo Dilma terá fôlego para implementar toda a sua agenda em meio às constantes investidas do PIG, tentando desestabilizá-lo e desestruturá-lo politicamente. E se, além disso, a blogosfera terá musculatura para fazer frente ao PIG.

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