WikiLeaks e Facebook: dois paradigmas na sociedade da informação

Assange vs. Zuckerberg

Recentemente, a revista Time promoveu uma enquete para escolher a “personalidade do ano”. Entre os candidatos estava Julian Assange, fundador do WikiLeaks, site que ganhou notoriedade ao divulgar o conteúdo de documentos de Estado confidenciais. Tal foi a repercussão da iniciativa do WikiLeaks que o mal-estar causado pela divulgação dos documentos confidenciais expôs o governo americano a situações constrangedoras, principalmente no que diz respeito à sua diplomacia. Coincidência ou não, Assange passou a ser perseguido em virtude de um processo na justiça da Suécia por supostos casos de violência sexual contra duas mulheres.

Apesar de Assange ter recebido o maior número de votos na enquete promovida pela revista, o nome escolhido pela Time para o prêmio foi o de Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, rede social de imensa popularidade.

A Time tentou justificar sua escolha baseada no fato de que o Facebook passou a fazer parte da vida de milhões de pessoas no mundo, chegando mesmo a mudar a maneira pela qual as pessoas se relacionam. Além disso, é ressaltada a capacidade empreendedora de Zuckerberg, que aos 26 anos construiu um império avaliado em cerca de US$ 7 bilhões. O jovem bilionário, além do empreendedorismo, ganhou notoriedade por aderir à iniciativa de outros bilionários, como Warren Buffet e Bill Gates, de doar parte de sua fortuna para instituições de caridade.

Mas nem tudo são flores na trajetória de Zuckerberg. A história de criação do Facebook é marcada por intrigas e traições, retratadas no filme de David Fincher The Social Network. Uma das intrigas diz respeito à participação do brasileiro Eduardo Saverin, ex-melhor amigo de Zuckerberg, que participou do início do empreendimento, mas que aos poucos teve sua participação diluída na composição societária do Facebook.

Dois paradigmas na sociedade da informação

Para além das diferenças entre seus fundadores, WikiLeaks e Facebook se apresentam como dois paradigmas distintos na sociedade da informação. No programa humorístico Saturday Night Live, um comediante no papel de Julian Assange resume a diferença entre o WikiLeaks e Facebook: “Qual a diferença entre Mark Zuckerberg e eu? Eu dou informação de graça para você, ele vende informação sobre você para empresas.”

Apesar de ser colocada no contexto de uma piada, parece não haver uma explicação melhor para distinguir os dois paradigmas que esses sites representam. De um lado, o WikiLeaks atua no sentido de tornar públicas — e gratuitas — as informações de interesse público, que as corporações e governos procuravam manter privadas, ocultando-as dos cidadãos. De outro lado, o Facebook transforma em mercadoria as informações pessoais dos usuários, que estes tornam públicas por meio da rede social, repassando-as a corporações e governos interessados.

Ou seja, as informações seguem dois caminhos diferentes: no primeiro caso, informações de interesse público são liberadas do monopólio da informação (segredos de Estado e de corporações), permitindo que cidadãos tomem conhecimento daquilo que lhes diz respeito; no segundo caso, informações de interesse privado (dados pessoais dos usuários) são apropriadas por um site, sendo vendidas como mercadorias às corporações e governos — fornecendo maior conhecimento sobre seus públicos-alvo e seus cidadãos. Estabelece-se assim uma via de duas mãos, em que de um lado a informação segue o sentido da publicização e, de outro, o sentido da privatização. Qual dos dois prevalecerá? É difícil de dizer. Contudo, a escolha da revista Time e as reações adversas talvez sejam bons indicadores de quem aponta para o novo e quem mantém laços com o antigo.

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