Viver da política e viver para a política

Nesta quarta-feira, o Congresso Nacional aprovou o aumento de salários do presidente, vice, ministros, juízes do STF e dos próprios parlamentares. Foi aprovado um aumento de mais de 60%: os salários foram elevados de R$ 16 mil para R$ 26,7 mil por mês. Como era de se esperar, a repercussão desse aumento foi negativa, provocando uma indignação quase unânime.

Indignação que se explica pela celeridade com que foi conduzida a votação no Congresso, ao contrário do que costuma acontecer no caso de outras matérias de maior interesse da sociedade. Ademais, num país em que o salário mínimo é de R$ 520, é compreensível a revolta com o generoso aumento salarial concedido pelos políticos a eles mesmos. Mas o que é determinante nessa indignação é o sentimento de descrença na política, já bastante generalizado no seio da sociedade brasileira.

Essa descrença na política não se desenvolve no vácuo e é herdeira direta de um pensamento individualista, cerne do pensamento liberal. Não podemos confiar nos políticos, esses sanguessugas. Só podemos confiar em nós mesmos, na nossa própria capacidade empreendedora do self-made man. Diante desse obstáculo representado pelos políticos e pelo Estado — que deveria se restringir ao papel de proteger nossa vida e nossas propriedades –, devemos buscar privadamente soluções para nossos próprios problemas: pagar um plano de saúde, contratar aparato de segurança particular, utilizarmos o transporte motorizado individual, etc.

Será que só os políticos estão ausentes?

Ou seja, nós reclamamos da falta de sensibilidade política, de respeito pelo público, por parte dos congressistas ao aprovar seu próprio aumento de salário. Mas agimos da mesma forma na vida cotidiana — pensando em nós mesmos: jogamos lixo no chão, furamos filas, entupimos as ruas das nossas cidades com carros, pensamos em todos os esquemas possíveis para aumentar nossa dedução do Imposto de Renda e por aí vai. No máximo, antevendo prejuízos à nossa imagem quando fazemos algo que não é de agrado dos outros, pensamos antes de tomar uma atitude impopular. Um pensamento republicano, que vê na busca do bem comum o sentido de vivermos em sociedade, passa longe de nossas cabeças. Antes, somos levados a ver o outro como um obstáculo, como um competidor. O Estado não é melhor nem pior que a sociedade: é apenas reflexo dela.

Não quero aqui fazer uma defesa do absurdo aumento concedido pelos parlamentares a eles mesmos. Apenas quero pontuar que essa atitude autointeressada não se dá porque eles são maus e nós, cidadãos de bem. Acontece porque somos, a rigor, maus cidadãos, ausentes da vida pública. Bem, vocês me responderão, mas nós temos que lutar pela nossa sobrevivência, não temos tempo para gastar com a política. Mas é propriamente esse o argumento invocado para que os parlamentares tenham uma remuneração extraordinária: Max Weber já dizia que para que uma democracia não seja uma plutocracia, um governo exclusivo dos ricos — aqueles que podem viver para a política –, faz-se necessário um sistema de remuneração que viabilize a manutenção de um cidadão qualquer exclusivamente com sua atividade política — permitindo que ele viva da política. É bem verdade que nossos parlamentares, mais do que viver da política, se enriquecem com ela — nem tanto por seus salários, mas principalmente pelos esquemas de corrupção nos quais se envolvem.

Desse modo, nossa luta, como cidadãos, não deve se restringir a esbravejar e choramingar com nossa descrença na política. Antes, devemos lutar por canais de participação e representação institucionais que reflitam com maior fidelidade nossos anseios. Devemos buscar formas coletivas de mobilização, seja no trabalho, nos movimentos sociais, nas comunidades locais, etc. E, sobretudo, temos que fazer nossa autocrítica: os parlamentares só agem dessa maneira porque nós damos forma a esse mundo em que o interesse individual se sobrepõe ao interesse público. Em suma, para que os políticos não enriqueçam às custas da política, nós temos que nos esforçar e viver um pouco mais para a política.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s