Eu odeio o Natal!

Eu odeio o Natal e outras festas, mas o Natal, com seu Papai Noel vermelho Coca-Cola, renas saltitantes, a celebração de um inverno que passa longe do Brasil, é, sem sombra de dúvida, a mais detestável. Até o menino Jesus entra na dança, assumindo a forma de figura de presépio — seja como uma maneira de lembrar timidamente do verdadeiro motivo da comemoração, seja para participar daquilo que efetivamente é o Natal na sociedade capitalista: um festival de consumo conspícuo.

E, no fim das contas, o Filho de Deus, que botou pra correr os comerciantes que profanavam o templo de seu Pai, é profanado: deixa de ser Deus e vira mera mercadoria. Essa profanação, que deixaria o cristão mais relapso de cabelo em pé, no entanto, parece passar despercebida. Pelo contrário, parece ser aceita de bom grado até pelos mais religiosos. O fato é que se o Natal é uma celebração religiosa, ela passa longe de ser uma comemoração do nascimento de Jesus, o Filho de Deus, que foi enviado aos homens para a remissão de seus pecados. Esse pode ser o pretexto, mas a divindade adorada nessa festa é outra: seu nome é mercado, e esse deus só pode ser adorado mediante o consumo desenfreado da mais ampla gama de mercadorias, não importa se por pagamento à vista, no carnê ou — preferencialmente — no cartão de crédito.

Sai pra lá, Papai Noel!

O que importa é consumir estupidamente. Esquecer-se de si mesmo e entregar-se sem reservas à satisfação dos desejos atiçados pela publicidade — os quais, a bem da verdade, nem mais desejos são, mas agora, necessidades. No capitalismo, Cristo perdeu seu status de redentor. Hoje, o consumo salva. Mandeville, a quem é atribuída a sentença “vícios privados, virtudes públicas”, veria nessa gula consumista a realização do seu ideal. Pois, lembremo-nos o quão importante é o consumo natalino para nossa economia: postos de trabalho — temporários e precários — são criados; famílias carentes são atendidas — talvez depois sejam esquecidas, mas sua falta de qualificação não garante um lugar no mercado de trabalho, fazer o quê? –; mais lixo é gerado para as cooperativas de catadores; e assim se multiplicam os exemplos da utilidade do comportamento individual-consumista, aparentemente “pecaminoso”. Pecaminoso porque a essência do consumo é a busca de diferenciação, de ser melhor do que o outro, o que é claramente incompatível com a máxima cristã de “amar o próximo como a si mesmo”. Segundo a doutrina realmente vigente, a do capitalismo selvagem, a máxima cristã parece exageradamente comunista: em nada contribui para a ambição das pessoas e, consequentemente, para aumentar a produtividade da economia.

Quando vejo a farsa em que se transformou o Natal, não consigo suportar minha inquietação. Ainda mais quando Jesus é tomado como cúmplice dessa patranha. Uma festa que deveria celebrar a paz, o amor e a caridade, na prática revela de forma explícita o conflito social que cinge nossa sociedade: enquanto uns se regozijam na fartura outros nada têm sobre a mesa. Conflito que é alimentado e ao mesmo tempo velado pela naturalização da injustiça social, como reflexo do mérito ou do demérito de cada um. Ou seja, o contraste entre miséria e fartura parece não nos escandalizar mais. Fazemos uma boa ação aqui ou acolá e pronto: já podemos aplacar nossa consciência e gozar a festa sem maiores incômodos. Mas essa postura é cínica! Esquecemo-nos de que, mais do que nunca e cada vez mais, como disse Gramsci, a produção de riquezas se torna social e o consumo destas, individual. Portanto, perdoem-me esse momento de catarse, mas sinto que o melhor que posso fazer, com os princípios cristãos que me restam, é me indignar. Por isso, digo e repito: eu odeio o Natal!

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2 Respostas para “Eu odeio o Natal!

  1. Enfim, alguém pensa como eu!

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