Escravos do “livre” comércio

O mundo assiste atônito à falta de um acordo efetivo do G-20 para conter a chamada “guerra cambial”. Na era do capitalismo altamente financeirizado, o controle do fluxo de capital financeiro é uma arma tão temível quanto uma bomba atômica, capaz de arruinar a economia de muitas nações com seus movimentos bruscos e imprevisíveis.

O último capítulo dessa guerra cambial foi o QE — alívio quantitativo (quantitative easing) — promovido pelo governo dos EUA junto com o FED. O QE nada mais é do que a emissão de R$ 600 bilhões de dólares pelo FED em troca de títulos da dívida do governo americano. Na prática, mais uma enxurrada de dólares numa economia mundial já saturada com a moeda americana. A ideia do governo americano é promover, por meio do aumento da oferta de moeda, um estímulo ao investimento — e à criação de empregos — numa economia ameaçada pelo fantasma da estagnação. Com a vitória dos republicanos nas eleições legislativas, qualquer tentativa de aquecer a economia mediante a intervenção estatal se tornou virtualmente impossível e, desse modo, virtualmente não restou outra solução a Obama.

O problema é que essa enxurrada de dólares provavelmente será direcionada para as economias emergentes, com perspectivas mais atraentes de remuneração desse dinheiro todo, já que provavelmente assumirá a forma de capital financeiro, isto é, especulativo. Com o maior influxo de dólares, as moedas locais devem valorizar-se ainda mais frente ao dólar e tornar menos atraentes as atividades voltadas para a exportação. Ou seja, os EUA têm um problema — e o mundo todo deve pagar.

A hegemonia norte-americana, no entanto, encontra uma forte resistência: a relutância da China em permitir a “livre” valorização de sua moeda, o yuan. Os chineses sabem que a alta de yuan pode comprometer suas exportações, fundamentais para sua economia.

Enquanto EUA e China brigam para desvalorizar suas moedas…

Contudo, China e EUA desenvolveram uma relação quase simbiótica: a China abriga uma miríade de unidades de produção de empresas americanas; além disso, possui gigantescas reservas em divisas americanas. Ou seja, se os EUA quebrarem, a China ficará com um monte de papel sem valor nas mãos. Se por um lado a China é o grande credor dos EUA, por outro lado, os EUA sempre foram o grande mercado para as mercadorias produzidas na China e, portanto, o consumo dos norte-americanos foi o principal combustível do assustador crescimento chinês nas últimas décadas.

Desse modo, é difícil ver quem vencerá esse “duelo de gigantes”. Ao que parece, o ônus recaíra sobre o resto do mundo. Uma das alternativas, pelo menos das mais claras, seria a substituição do dólar como padrão para as trocas comerciais internacionais e para a reserva de valor, por uma cesta de moedas de vários países.

Outra solução seria que as nações extremamente dependentes do comércio externo se voltassem para o fortalecimento de seus mercados internos. Essa solução é até plausível no caso de países pobres, onde a inclusão de pessoas no mercado pode, efetivamente, significar a satisfação de necessidades básicas para milhões de pessoas. O que dizer, no entanto, de nações “superdesenvolvidas” com suas economias voltadas para a exportação, como é o caso da Alemanha, por exemplo?

Esse iminente caos na economia mundial mostra o equívoco do receituário neoliberal, prescrito pelo FMI a todas as economias que precisaram do seu socorro. O que dizia esse receituário? Que essas economias precisavam de menos Estado — menos funcionalismo público, menos impostos — e busca de maior eficiência na produção de gêneros para exportação. Uma leitura muito particular da teoria ricardiana das vantagens comparativas.

O problema é que, na prática, o “livre” comércio se mostrou como um sistema de desvantagens absolutas: 1) nenhum país integrado ao capitalismo global tem as condições de não realizar o comércio, ou seja, de atender todas as suas necessidades — inclusive alimentares — por si mesmo; 2) nenhum país, na prática, tem soberania para determinar suas políticas trabalhistas, garantindo os níveis de emprego e demanda interna, quando se vê ameaçado pela constante competição internacional baseada na precarização do trabalho; 3) nenhum país — exceto EUA — tem soberania suficiente para conduzir sua política monetária sem ameaças de dilúvios ou secas de dólares no mercado internacional. E assim fomos moldados pela doutrina neoliberal: escravos do “livre” comércio.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s