Dia mundial sem carro: fracasso aparente, fissura latente

Ontem, embora pouca gente saiba, foi o dia mundial sem carro. Aliás, o conhecimento sobre o dia mundial sem carro é cada vez maior, haja vista que a hashtag #DiaMundialSemCarro entrou nos Trending Topics brasileiros no Twitter. De todo modo, a julgar pela situação do trânsito nas grandes cidades, parece que a data foi solenemente ignorada.

Isso significa um fracasso? Não necessariamente. Minha opinião é de que, a despeito do fracasso aparente, há uma fissura latente na “cultura do automóvel”. Tentarei explicar essa tese logo a seguir.

A civilização brasileira do automóvel

O automóvel é o símbolo maior da modernidade capitalista. Não por acaso, foi um dos principais estandartes do desenvolvimentismo do governo JK, para quem governar era abrir estradas. De fato, instalar a indústria automobilística no Brasil foi uma verdadeira obsessão de Juscelino. Tal indústria carimbaria o “passaporte para a modernidade”, tirando o Brasil de sua situação de “atraso”. A fim de fomentar a indústria do automóvel, não bastaria, contudo, investir nos bens de capital que permitissem sua operação. Era preciso investir na infraestrutura, abrindo rodovias em detrimento das ferrovias.

Na prática, no entanto, esses benefícios da modernidade não favoreceram igualmente todos os brasileiros. À exceção das classes dominantes e das classes médias urbanas, poucos puderam usufruir do conforto, da velocidade e da comodidade do automóvel. A atividade da indústria automobilística, predominantemente de capital estrangeiro, tirou proveito da mão-de-obra barata como forma de ampliar seus lucros. A velocidade dos automóveis — em posse da minoria — , acabou por “deformar” as cidades, opondo o centro à periferia; desconectando os lugares do trabalho, do lazer, do convívio, da habitação.

Esse processo foi levado às últimas consequências nas grandes metrópoles, das quais São Paulo é exemplo paradigmático. E com esse desdobramento, todas as promessas do automóvel caíram por terra. A promessa da velocidade ficou presa no congestionamento. A promessa do símbolo de privilégio e do status social ficou ameaçada pela violência urbana. A promessa de uma vida mais prazerosa sobre quatro rodas foi solapada pelo ritmo frenético da vida cotidiana, ritmo este engendrado pelo mesmo capitalismo que tanto preza o transporte motorizado individual.

Sinal fechado: o que restou da sociabilidade na civilização motorizada

Em busca de novas soluções

Essas promessas não cumpridas, aliadas a outros efeitos nefastos causados pelo paradigma do transporte individual motorizado, notadamente a poluição atmosférica, levaram diversas cidades ao redor do mundo em busca de novas soluções para a mobilidade. Investir em transporte coletivo, seja ferroviário, metroviário, aquaviário, etc. passou a integrar a pauta das políticas públicas de transporte. Nesse contexto, inclusive a bicicleta passou a se apresentar como alternativa para o problema da circulação nos grandes centros.

Esse quadro de insatisfação com respeito ao automóvel enquanto solução de transporte criou as condições para a mobilização social em busca de alternativas, redundando na instituição de um dia mundial sem carro. O que não pode deixar de ser reconhecido como uma conquista: significa que o paradigma do transporte individual motorizado começa a ser questionado. A insatisfação com o atual modelo é tal que boa parte dos moradores de São Paulo estaria disposta a deixar o automóvel na garagem se tivessem uma alternativa eficiente de transporte coletivo.

Um desafio real

A realidade, no entanto, está impregnada com a modernidade do automóvel. Já foi mencionada “deformação” das cidades, processo que resultou numa desconexão geográfica entre os diferentes espaços da vida das pessoas, obrigando-as a vários deslocamentos ao longo do dia. Some-se a isso o insuficiente investimento no transporte público para dar conta da crescente demanda. O que se tem é uma sociedade refém do automóvel. Isto é, em muitos casos, deixar ou não o carro na garagem não chega a ser uma escolha — é uma imposição do modo de vida nas metrópoles.

A batalha está perdida? De maneira alguma. O primeiro passo é reconhecer o problema e ir em busca de uma resposta. Nesse sentido, creio que o dia mundial sem carro é a tentativa de uma resposta, a qual do silêncio passa a ser ouvida e conhecida cada vez por mais pessoas. Ainda que na prática seus resultados possam ser pífios, há de se reconhecer que essa ideia tem que vencer uma inércia que é reforçada pela falta de opção das pessoas. Mas estas, ao se verem nessa situação de impotência, devem se mobilizar a fim de exigir do poder público novas alternativas — aceitáveis — para o deslocamento na cidade. Porque lutar por uma alternativa ao automóvel é, no final das contas, lutar pelo direito de ir e vir.

P.S.: dois textos altamente recomendados sobre essa questão do automóvel: Energía y equidad, de Ivan Illich; e A ideologia social do carro a motor, de André Gorz

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