Algumas reflexões

Às vezes sinto que minha mente é invadida por uma multidão de ideias. São tantas que é difícil distingui-las. Entretanto, de um instante para outro elas são capazes de desaparecer completamente. Minha ideia é de, daqui pra frente, fazer um registro, desorganizado que seja, dessas ideias. Uma espécie de fotografia dessa multidão. Com essa fotografia em mãos, talvez eu seja capaz de identificá-las melhor.

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Neo-cinismo e a sociedade de consumo. Seria uma reedição da postura de Diógenes — o “filósofo de barril” — , de fazer pouco caso das riquezas materiais, capaz de fazer frente à sociedade de consumo? Talvez. Que situação seria análoga nos dias de hoje àquela em que o filósofo supostamente teria sido abordado por Alexandre, o Grande, pedindo ao grande conquistador que saísse de sua frente de modo a  não lhe obstruir da luz do sol? A recusa do transporte individual motorizado — automóvel — , da tecnomedicina, do consumo perdulário. Imagino Diógenes em nossa sociedade capitalista. O problema é que em nossa época a pobreza é crime e ele provavelmente iria pro xadrez por “vadiagem” se insistisse em levar a vida no barril.

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Preguiça e pulsão de desligamento. O senso comum associa a preguiça com uma certa vontade de tirar vantagem dos outros. A conhecidíssima fábula da cigarra e da formiga é notório exemplo disso. No entanto, o fato é que o conceito de trabalho deve ser questionado. Afinal, o que é trabalho? Se entendermos no sentido restrito, e respeitando a origem etimológica, que vem de tripalium, um instrumento de tortura, trabalho é uma atividade instrumental necessariamente desprazerosa.Por outro lado, se tomarmos uma definição ampla de trabalho, como a atividade pela qual o ser humano se efetiva, não podemos dizer que a cigarra era preguiçosa, já que seu trabalho era propriamente cantar. De modo que proponho a “descriminalização” da preguiça (O direito à preguiça já foi pregado por Paul Lafargue, no fim do séc. XIX). Acho que a preguiça, no sentido de nada querer fazer, é muito mais uma manifestação da vontade de se desligar do mundo do que vontade de viver às custas dos outros. Pelo contrário, ao ver que vive-se às expensas dos outros, há quem quisesse deixar de ser um fardo — e morrer.  Vontade de viver às custas dos outros tem outro nome e outra relação com o trabalho: exploração, que visa a intensificar o trabalho dos outros (e trabalho naquele sentido restrito e perverso).

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O caráter anti-social como questão de escopo. Se não vou a um evento social porque ele ocorre num local em que não é acessível senão por automóvel, então eu sou anti-social? Ou anti-social é a estrutura das cidades que se deformou com a introdução do transporte motorizado? A difusão do automóvel fragmentou a cidade (o espaço) e a vida das pessoas. A velocidade é o elemento que permite articular essa colcha de retalhos que se tornou a vida moderna, na medida em que torna acessíveis espaços distantes em intervalos de tempo razoáveis: a moradia está num condomínio perdido no km x de uma rodovia; o trabalho está no km y de outra rodovia; a escola, o lazer, as compras, alhures. A cidade se torna descontínua, assim como a vida — familiar, social, política. Uma sociedade de retalhos. Retalhos agrupados pelo processo de deslocamento. Nesse momento de deslocamento, no trânsito, não há sociedade — ou melhor, só há nas regras internalizadas pelos motoristas, em diferentes graus — mas basicamente indivíduos que se colocam uns contra os outros. Um motorista é para um outro motorista um simples obstáculo no processo de deslocamento — a conexão entre um contexto social para outro. Como os congestionamentos se agravam, tomam cada vez mais tempo e, desse modo, ampliam cada vez mais os tempo-espaços de não-sociedade. O carro é, portanto, a grande ameaça à sociedade, um artefato anti-social.

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