O marketing político e o esvaziamento do debate

Quem assistiu ao debate presidencial da Band deve ter se decepcionado. A sensação foi de que muito se falou, mas pouco se disse.

Serra, veterano de outras eleições, insistiu na questão da saúde: exaltou as AMEs implantadas em SP e ressaltou os mutirões de cirurgias que realizou no Ministério da Saúde.

Dilma, demonstrando insegurança, buscou colar sua imagem às realizações do governo Lula. Acabou se atrapalhando em algumas perguntas.

Marina teve participação apagada, mesmo porque poucas perguntas lhe foram dirigidas pelos demais candidatos. Saiu-se bem em pergunta do jornalista Joelmir Betting sobre eventual prioridade da questão ambiental (aquecimento global) sobre a questão social (saneamento básico), ao apontar que as questões não são mutuamente excludentes, mas devem ser abordadas conjuntamente.

Plínio Sampaio, experiente e sem nada a perder, foi a figura que rompeu o marasmo e animou o debate. Mostrou-se crítico em relação a todos os seus adversários: em relação a Serra, disse que este era favorável ao latifúndio (por não apoiar a limitação da propriedade rural); quanto à Dilma, questionou o caráter social das políticas petistas comparando o valor de recursos destinados aos programas sociais e ao serviço da dívida; e em relação à Marina, rotulou-a de “eco-capitalista”, pela visão da candidata de que seria possível conciliar o capitalismo com a preservação ambiental. As propostas de Plínio, no entanto, por melhores que fossem, careciam de realismo político. Ou ele acredita mesmo que seria possível instituir uma radical redução da jornada de trabalho?

Em suma, o debate foi marcado pela monotonia, exceto quando Plínio vinha com algum gracejo. Os outros três candidatos, de maneira geral, se mostraram extremamente protocolares. Até os eventuais ataques foram bastante moderados.

Como explicar isso? Pode ser que esse debate tenha sido “morno” por ter sido apenas o primeiro. O que faz sentido, já que foi o primeiro embate direto entre os candidatos, no qual eles ainda estariam “se estudando”.

Mas eu iria mais longe. Ao meu ver, o marketing político também tem sua influência nesse clima “morno”. A partir do momento em que o candidato passa a ser um “produto”, cujo “público-alvo” deve ser a maioria do povo brasileiro, é preciso tornar sua imagem mais palatável, aparar suas arestas. O resultado disso são figuras insonsas, com discursos pré-fabricados, previsíveis. Não que eu quisesse um desequilibrado na presidência do país. Mas a questão é que essa aparente previsibilidade dos comportamentos pode ser enganosa, mera representação teatral. E o eleitor, com razão, terá motivos de sobra para pensar que o debate foi pouco esclarecedor para a formação da sua opinião.

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2 Respostas para “O marketing político e o esvaziamento do debate

  1. Não vi os primeiros blocos do debate, mas pelo que pude acompanhar, concordo com você, inclusive no que diz respeito ao discurso do Plínio que, por mais convicto e sincero que seja, carrega ideais intangíveis nesse momento … Aguardemos os próximos capítulos.

    • Eis o grande dilema da política: ser ideologicamente coerente ou realisticamente convincente? Plínio tentou a primeira opção, os demais, a segunda. Mas ninguém conseguiu convencer. Não sei se dá pra esperar muita coisa…

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