Ser ou não ser vegetariano — eis a questão

Desde o jantar de 3ª feira passada eu vinha tentando não comer carne. Por uma série de razões que tratarei a seguir. Ontem e hoje, porém, fui colocado frente a situações que me fizeram pensar a viabilidade de eu adotar a postura vegetariana num país em que há uma obsessão sobre o consumo de carne.

Motivações para me tornar vegetariano

Não é a primeira vez que eu tento me abster do consumo de carne. Daquela vez acho que minha principal motivação para deixar a carne de lado era a questão do sofrimento animal, influenciado principalmente pelo que diziam alguns amigos meus do tempo do colegial, que tinham adotado uma postura vegetariana ou mesmo vegana.

Não que essa preocupação tenha deixado de existir, mas diria que após esse fracasso anterior eu acabei desenvolvendo uma série de contra-argumentos a essa justificativa com base no sofrimento animal. Por um lado, se o que está em questão é o sofrimento, entendido aí como a capacidade de um organismo sentir dor, seria legítimo comer uma bizarrice genética, um ser de proteína (como contam aquelas lendas urbanas sobre uma famosa rede de fast food de hambúrgueres) que nada sentisse, embora fosse de carne. Ainda, se ampliarmos o alcance do que entendemos por sofrimento, quem não nos garante que as plantas também sofrem? E o pior de tudo é que a principal fonte alternativa de proteína é a soja. Mas soja não se planta no quintal de casa, e sim em grandes propriedades rurais. E o que temos visto, infelizmente, é o avanço de fronteiras agrícolas sobre importantes biomas, como o cerrado e a própria Amazônia. Isto é, a expansão agrícola tem destruído formações naturais e causado impactos sobre a biodiversidade.

Munido de todos esses contra-argumentos, adotei uma postura conformista. Esses contra-argumentos fundamentavam o que eu chamo de o ônus da existência: se você existe — materialmente — , significa que você está consumindo recursos; para que uns possam viver, outros têm de morrer.

Já que eu estava “insensível” ao argumento do sofrimento, o que me fez mudar de ideia e reconsiderar a possibilidade de ser vegetariano? Eu acho que o principal motivo é o caráter simbólico de recusa que essa postura tem. Recusa a um paradigma de consumo quanto mais, melhor. Se para que uns possam viver outros têm de morrer, isso não impede que os viventes consumam mais conscientemente e poupem vidas. Num mundo que está ficando pequeno pra tanta gente, todo mundo fala de sustentabilidade e ainda tem a cara de pau de almejar que todo chinês tenha o padrão de consumo de um norte-americano. Se alguém fala sério em sustentabilidade, não pode esperar que toda a população do planeta consuma carne todo dia.

A grande tentação diante desse problema que envolve população e alimentos é retomar o discurso de Malthus e propor políticas de controle populacional. Concordo que a população tem que parar de crescer. O problema é que isso não se consegue de um dia para o outro, pois a diminuição no ritmo de crescimento, ou mesmo o decrescimento populacional, só vão se refletir no tamanho da população a longo prazo — não nos esqueçamos do aumento da expectativa de vida e da diminuição nas taxas de mortalidade infantil. Ademais, a população em boa parte do mundo já apresenta diminuição no ritmo de crescimento — e em vários países da Europa a taxa de fecundidade está abaixo dos níveis de reposição. A diminuição da pressão populacional, portanto, só pode ser atingida a longo prazo e deve ser buscada mediante a livre adesão das pessoas, dando-lhes as condições de educação e saúde necessárias para que possam decidir sobre o planejamento familiar.

Como a população é um problema de solução a longo prazo, o que podemos começar a fazer hoje é readequar nosso padrão de consumo. Nesse sentido, a adoção de uma dieta vegetariana, ou mesmo uma redução no consumo de carne, é crucial para que a Terra possa alimentar todos os seus habitantes. Oras, rebanhos bovinos e suínos e granjas de aves não se alimentam apenas de ar e luz — como os vegetais. Para a produção de carne, inevitavelmente tem-se que desviar parte da produção agrícola para a alimentação animal. Isso quando o gado, principalmente bovino, não é criado em pastos, os quais ocupam largas faixas de terras que poderiam estar produzindo alimentos — isso sem falar no problema do avanço dos pastos para criação de gado bovino na Amazônia. Outra questão que se tem levantado é a contribuição das atividades pecuaristas para o aquecimento global, já que essas atividades são responsáveis pela liberação de grandes quantidades de gás metano.

A minha motivação para deixar de consumir carne, portanto, assumiu um caráter mais pragmático. Não tenho a ilusão de que porque eu parei de comer carne que o mundo vai mudar, mas tenho a consciência de que é preciso fazer algo para preparar uma mudança. E penso que é importante conjugar essa postura com um conjunto de atitudes que se oponham ao paradigma do quanto mais melhor em direção ao do isto me basta.

Será que dá pra tirar a carne do PF?

Os desafios para a adoção dessa postura

Como comentei logo acima, já me deparei com algumas dificuldades para a manutenção da minha dieta vegetariana (nem me atrevo, pelo menos agora, a tentar uma dieta vegana, abandonando completamente ovos e leite). E essas dificuldades são, ao meu ver, dificuldades de caráter social. Particularmente, nesses dias vegetarianos, não senti falta da carne e passei muito bem à base de feijão, arroz integral e proteína de soja. Mas, como recusar o consumo de carne numa sociedade que tem na carne um objeto de verdadeira devoção?

Não fosse a carne tão importante — e tão cultuada — na dieta do brasileiro, não haveriam tantos nomes para designar as partes do boi: picanha, filé mignon, contra filé, cupim e por ai vai… a diversidade de termos para nomear as partes bovinas dão a dimensão da importância da carne na cultura alimentar do Brasil. Além disso, quem costuma frequentar restaurantes populares sabe que todo dia tem arroz, feijão, salada, batata frita — as guarnições — e a mistura — a carne. Ninguém perde o tempo com as guarnições, mas escolhendo a mistura.

A primeira dificuldade que encontrei, ontem, foi quando meu pai veio me visitar e me entregou uma marmita que minhas tias haviam preparado para mim. Quando olhei o conteúdo, o que vi? Uma bela posta de salmão, sobre o arroz e algumas verduras. O prato estava lindo, mas não tive coragem de comer. Coloquei no freezer e ainda penso o que vou fazer com ele.

A segunda dificuldade, que encontrei hoje e que de certo modo sabotou minha dieta, é que para ser vegetariano não basta boa vontade. É preciso estar atento às armadilhas. Hoje no jantar tinha farofa e eu não consegui evitá-la. A princípio, pensei que não haveria problema, afinal, o que é uma farofa? Um punhado de farinha com algumas coisas misturadas, como cebola e ovo. O problema é que eu não tinha visto mas a dita farofa tinha uns pedacinhos de carne desfiada. Pronto, comi carne.

Apesar desse deslize, evidentemente não desisti de mudar minha postura. Só questiono os limites do meu vegetarianismo. Acho que o mais sensato da minha parte seria dizer que “eu evito comer carne”, pois nem sempre é possível ser vegetariano — não ao menos sem passar fome ou ser deselegante em certas ocasiões. Do mesmo modo, não é possível exigir que todo mundo largue o carro na garagem e comece a andar de bicicleta nas grandes cidades, as quais se desenvolveram dentro de um paradigma que praticamente impôs o transporte motorizado individual. O mundo tem de ser mudado aos poucos. O que não se pode perder de vista é a necessidade de mudança. E viva as reformas revolucionárias!

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