Se não fosse o imprevisto, não valia a pena viver

Planejamento, gestão, controle, racionalização e eficiência. Cada vez mais essas diretrizes que regem o mundo empresarial começam a invadir a esfera privada. As pessoas aplicam um planejamento a suas vidas, fazem a gestão de suas carreiras, procuram se proteger de eventualidades se submetendo a instrumentos de controle, racionalizam suas rotinas a fim de se tornarem mais eficientes.

Assistindo a essa “racionalização” da vida, me pergunto: de que vale tudo isso? Nunca a expectativa de vida foi tão elevada, mas também nunca foi tão grande a pressa de acumular diplomas, realizar viagens, atingir o topo da carreira. Será que essa pressa não nos impede de experimentar devidamente as situações de nossa vida, expondo-nos a uma constante frustração? Eu penso que sim: é urgente resgatar a dimensão ética de nossas vidas, isto é, a busca do que é uma vida boa.

Mas é possível pensar no que é uma vida boa num mundo extremamente competitivo, em que não parece haver oportunidade de sucesso para todos, no qual quem não é suficientemente qualificado está constantemente ameaçado de exclusão, por meio do desemprego? Eu diria que resgatar a dimensão ética de nossas vidas não apenas é possível, como é urgentemente necessário.

Nosso mundo “racional” — mcdonaldizado, nos termos de Georges Ritzer — é uma máquina de ilusões, frustrações e, no limite, barbárie. (Aliás, pode ser que de longe ele se pareça uma máquina que funciona mediante a interação de suas peças, mas de perto parece muito mais um estado de guerra de todos contra todos, como o era no estado de natureza do homem de Hobbes.)

A grande ilusão é de que seu mecanismo fundamental, a lógica de mercado e do lucro privado, promove a alocação ótima dos recursos disponíveis e da produção. Isso pode até ser verdadeiro no âmbito da empresa, mas aplicado ao conjunto da sociedade o que se percebe é que essa lógica maximiza a exclusão e o desperdício. Com efeito, essa lógica se baseia no pressuposto da escassez, isto é, de que uma quantidade limitada de recursos está sob disputa dos atores econômicos. Essa escassez e a disputa, a concorrência, leva à busca de economia de trabalho e ao mesmo tempo de intensificação da produção — em outras palavras: aumento da produtividade. Se para a empresa o aumento da produtividade vai na direção da maximização do lucro, para o conjunto da sociedade o resultado é a maximização da exclusão e do desperdício.

Outro resultado inevitável desse mecanismo é a generalização da frustração. De fato, estamos todos vulneráveis à exclusão, tendo em vista as rápidas mudanças tecnológicas, nas modas, no conhecimento “padrão”. Por outro lado, a busca da felicidade continua sendo a razão de viver vendida às pessoas: a felicidade está ao alcance do carro novo, da residência de luxo, do shopping center, enfim, ao alcance de tudo que pode ser comprado. Evidentemente, trata-se de um engodo pois que, se há alguma satisfação nesse ato de “consumir a felicidade”, essa felicidade é tão precária a ponto de se desfazer no momento imediatamente seguinte ao pagamento, ao passo que as contas a serem pagas se arrastam por um prazo a perder de vista.

Não bastasse essa falaciosa venda da felicidade, outra grande fonte de frustração do nosso mundo “racionalizado” é que, ao contrário do que ele promete, a vida continua sendo imprevisível. Não basta seguir todas as suas recomendações: acumular diplomas, consumir o que a publicidade vende, gerir diligentemente sua carreira, ser “o melhor”. Não, todas essas precauções e tentativas de controlar o rumo da vida não são garantia do sucesso. A vida teima em ser imprevisível. Os dissidentes teimam em discordar do sistema, os diferentes insistem em ser diferentes, os eventos naturais não se conformam aos modelos científicos. Toda essa imprevisibilidade parece a princípio inaceitável, incoerente com a aparente harmonia do sistema-máquina: o sistema não pode estar errado, quem deve estar errado são os diferentes e a natureza. E esse tipo de pensamento conduz à barbárie: à intolerância perante o diferente (por sua religião, sua “raça”, seu comportamento desviante), à indiferença diante da injustiça (naturalizada como o efeito colateral da “lei do mais forte”), à depredação da natureza — apesar do discurso em uníssono a favor da sustentabilidade.

Diante de tudo isso, o que fazer? Eu penso que a resposta é aceitar os imponderáveis da vida. Se não fosse o imprevisto, não valia a pena viver. Se nossa vida estivesse tão planejada a tal ponto que não houvesse o que mudar em relação ao plano que foi traçado, não seria preciso vivê-la: bastaria ler o seu “roteiro”. Uma vida sem imprevistos não seria uma vida humana, mas uma existência pós-humana, maquinal. Somente mediante a aceitação do imprevisto é que poderemos conviver com — e não apenas tolerar — o outro, o diferente e mesmo nos reconciliarmos com o mundo natural, sabendo que somos parte dele e não seus dominadores. Por outro lado, só desse modo seremos capazes de discernir o sofrimento que tem origem num elemento imponderável e o que tem sua gênese numa injustiça construída por nós mesmos.

Em suma, se não fossem os elementos imprevisíveis não poderíamos ter esperança. Toda utopia, toda expectativa de construir um mundo melhor deveria ser abandonada se a lógica do atual sistema que rege nossas vidas fosse tão infalível. Não poderíamos pensar sequer em evolução, pois qual o motor desse processo na teoria darwiniana senão o caráter imprevisível das mutações, por meio das quais determinada espécie conseguiria uma melhor adaptação ao meio? O imprevisto e as possibilidades de mudança que ele implica são um convite à vida.

“Whatever tomorrow brings I’ll be there

With open arms and open eyes, yeah”

— Incubus, “Drive”

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