A Seleção Brasileira é Nossa: contra o monopólio CBF-Nike

A eliminação brasileira na Copa do Mundo deste ano e seus desdobramentos subsequentes evidenciaram um grande problema, que não é de hoje. A seleção brasileira é, ao mesmo tempo, uma paixão nacional e um produto que pertence a uma entidade privada.

A CBF, há 21 anos comandada por Ricardo Teixeira — um senhor cuja história no futebol é obscura; o seu único vínculo com o esporte é ter sido genro do também cartola João Havelange — , é quem detém e administra um dos “produtos” e uma das “marcas” mais valiosas do milionário mundo do futebol: a seleção brasileira. Sim, para este senhor a seleção é um produto, aliás, muito lucrativo: rende contratos de patrocínio, marketing de material esportivo, “cachês” vultuosos por amistosos com selecionados de países com pouca tradição no futebol.

Os defensores do empreendedorismo me perguntarão: “Oras, mas o que há de errado nisso? Se o sujeito é um visionário e sabe ganhar dinheiro com o futebol, que mal há? Ele está criando empregos, movimentando a economia, etc.”

A resposta é simples: o que está errado é o fato de que a seleção brasileira de futebol só é o que é pela paixão do povo brasileiro: que veste a camisa e torce pelo time — independentemente de quem esteja no comando — ; que a cada quatro anos enfeita as ruas, deixa de lado o que está fazendo, só para apoiar a seleção; que, enfim, ama o futebol e por isso constantemente dá ao esporte novos craques que encantam o mundo com seu talento. Isto é, o que dá valor a esse “produto” é o valor cultural que o futebol tem no Brasil, fruto das práticas de todo um povo. Portanto, o problema é que esse povo, o qual por meio de sua cultura, dá valor ao futebol é privado tanto dos dividendos econômicos obtidos com a mercadorização da seleção, quanto da participação política sobre os destinos dela. Em suma, trata-se da apropriação privada de uma riqueza pública, por meio de uma prática monopolista.

Essa situação ficou clara na polêmica criada entre o técnico Dunga e a Rede Globo de televisão. O técnico da seleção, a fim de evitar que a invasão de privacidade atrapalhasse seu trabalho, cortou todos os privilégios de que antes desfrutava aquela emissora — entrevistas exclusivas com os jogadores, ficar hospedada no mesmo hotel da seleção, etc. — , provocando uma ofensiva midiática global contra ele. A gota d’água foi na entrevista coletiva após o jogo contra a Costa do Marfim, na qual o técnico não se conteve e interpelou o jornalista Alex Escobar, da Globo. A partir daí, a guerra contra Dunga foi declarada num discurso-editoral do repórter global Tadeu Schmidt. A Rede Globo não perdeu uma oportunidade para atacar o técnico, sendo impiedosa quando da eliminação da seleção brasileira. Dunga e Felipe Melo foram eleitos os bodes expiatórios da derrota e não foram poupados de críticas caluniosas pela toda-poderosa da mídia brasileira.

Camisa oficial da CBF-Nike? Just don't do it!

A reação do público e dos atores privados diante desses episódios mostram a divergência entre a vontade popular e os interesses privados. Após a polêmica com Alex Escobar, se a Globo passou a perseguir Dunga, parte significativa do público, por sua vez, passou a manifestar seu apoio ao treinador, chegando ao ponto de mobilizar uma campanha de boicote à Globo pelo Twitter — a campanha #DiaSemGlobo. Logo em seguida à eliminação, se aquela emissora iniciou uma campanha difamatória contra o técnico e seus comandados — com direito a protestos veementes do apresentador Fausto Silva — , mais uma vez boa parte do povo foi na direção contrária, apoiando os integrantes da seleção eliminada — apoio que, ainda que não tenha sido unânime, e talvez por isso mesmo, demonstra a paixão do brasileiro pela instituição seleção brasileira. O pior, no entanto, foi a postura subserviente do presidente da CBF ao comparecer a uma edição especial do programa Bem Amigos, do “célebre” Galvão Bueno. Tal qual o gerente de uma loja na qual o cliente foi mal atendido por um funcionário mal educado, Teixeira fez o possível para tentar acalmar seu cliente VIP, reestabelecendo a política dos privilégios.

Retomando o raciocínio anterior, se a seleção brasileira fosse de fato um negócio bancado por Teixeira, da formação do garoto desde a categoria dente-de-leite, dando-lhe todas as condições de treinamento e acesso à educação, até a inserção nos clubes de futebol e sua profissionalização; do patrocínio aos torcedores brasileiros até o apoio ao futebol amador; ainda assim seria difícil sustentar sua legitimidade ao tratar do futebol brasileiro como uma mercadoria, curvando-se aos interesses da Globo. Como a CBF faz menos do que isso, mas apenas uma gestão lucrativa de um produto chamado seleção brasileira, é inadmissível para o povo brasileiro ver o que essa entidade faz com um esporte que é muito mais que um esporte: é uma paixão e uma manifestação cultural — manifestação cultural, aliás, capaz de reunir os diferentes sotaques e regionalismos brasileiros.

Diante de tudo que foi dito, é urgente um movimento popular para “retomada” da seleção. Ela precisa adquirir o estatuto de um patrimônio cultural dos brasileiros, por meio do qual fique a salvo das práticas que a tratam como um capital, sujeito aos interesses privados de quem o detém. E um primeiro passo desse movimento seria a “retomada” da identidade da seleção pelo povo: a amarelinha. Uma primeira mobilização deve envolver a recusa das “marcas” que se apropriam da identidade canarinho, a saber, Nike e CBF. Para torcer pelo Brasil, a camisa verdadeiramente “oficial” é a camisa amarela, sem logotipos. Só assim poderemos reafirmar que a seleção brasileira é nossa: contra o monopólio CBF-Nike.

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2 Respostas para “A Seleção Brasileira é Nossa: contra o monopólio CBF-Nike

  1. falou e disse. []s

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