Antes odiado pelo que sou do que amado pelo que não sou

Enquanto esperava o ônibus de volta para casa — sem muita esperança de que ele chegasse logo — um estalo, um insight me pegou desprevenido. Fui iluminado por uma sentença de um verdadeiro maquiavelismo existencialista: antes odiado pelo que sou do que amado pelo que não sou.

Maquiavel, ao compilar seus conselhos ao príncipe, concluiu que entre ser amado ou temido, não sendo possíveis as duas coisas ao mesmo tempo, seria preferível a segunda opção — já que segundo ele o amor seria volúvel ao passo que o temor provocaria um comportamento sempre zeloso.

Maquiavel

Maquiavel aconselhava o princípe: é melhor ser temido do que amado. Eu aconselho: antes odiado pelo que você é do que amado pelo que vc não é.

No caso da máxima que veio à minha mente, no entanto, penso que seus motivos são diferentes. Talvez o problema não seja a volubilidade do amor. Muito pelo contrário: provavelmente o amor se empenhe tanto em estimar algo, que num dado momento tem um estado determinado, a ponto de ser incapaz de aceitar as mudanças desse seu objeto de estima.
Passa-se, desse modo, a amar algo que não é mais.

E quando se é sujeito de um amor por algo que não é mais, a tendência é sempre de não se reconhecer o estado atual das coisas, de desejar uma constante volta ao passado. É esse, de certo modo, o amor dos pais, para os quais seus filhos serão sempre crianças. Um sentimento que se manifesta de tal forma que os impede de conhecer o outro no qual seus filhos se tornam, de contemplá-los em toda a sua integralidade, defrontar-se perante sua diferença, reconhecer-lhes sua autenticidade. Esse é só um exemplo, mas essa situação também poderia compreender os casos em que existe grande discrepância entre a imagem para si e a imagem para os outros de um determinado indivíduo objeto de um amor desse tipo.

E a posição de objeto de um amor por algo que não é mais também apresenta suas grandes dificuldades. O medo de perder a estima daquele que ama, leva o amado a representar uma falsa personagem, uma encenação daquilo que ele já não é mais, a sustentar um fantasma. E como todo fantasma, esse também virá assombrá-lo mediante a dúvida sobre quem realmente é o objeto do amor: quem o amado é ou quem ele foi. E o amado continua preso entre o medo e a inautenticidade.

De modo que só existe uma forma de superar esse círculo vicioso, essa situação inautêntica: assumir o papel de quem se é — a despeito do risco de ser odiado. Só dessa forma o amor, se realmente existir, poderá se manifestar de forma autêntica. Não mais como uma relação entre um sujeito e um objeto, mas como uma relação entre dois sujeitos — uma relação intersubjetiva. De modo que se sou odiado por quem eu sou autenticamente, devo estimar esse ódio, o qual, a despeito de sua negatividade, me reconhece como um verdadeiro ser, no seu estado atual. Por isso, ao menos para mim, essa sentença fez todo o sentido.

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