Além do sangue: divagações sobre o “conceito” de família

Falar de família evoca implicitamente a ideia de grupo consanguíneo.

Isso talvez faça sentido para as sociedades ditas “tradicionais”, isto é, grupos cujas relações estão restritas social e espacialmente, numa — ao menos aparente — homogeneidade. Com efeito, essa foi a abordagem principal da Antropologia Social inglesa, com suas construções teóricas de sistemas de parentesco baseados em linhagens, as quais eram constituídas basicamente por relações consanguíneas.

Hoje em dia, não apenas pelas novas formulações teóricas no campo da Antropologia Social — que chegam a contestar o conceito de sociedade, tendo em vista o caráter fluido dos grupos humanos e das trocas culturais –, mas também em virtude das inovações tecnológicas, as quais promovem um fenômeno de compressão do tempo e do espaço, nos termos de David Harvey, parece que a associação entre família e grupo consanguineo tende a se enfraquecer. O “conceito” mesmo de família é colocado em questão.

De fato, a estrutura que nos vem logo à mente quando pensamos em família — o pai, a mãe e os filhos vivendo num lar — nem sempre foi assim e, ao que tudo indica, está sujeita a um processo de mudança. A “nossa” família não passa de uma forma específica, situada num momento histórico específico, num lugar específico. Basta lembrarmos de que até bem pouco tempo — há alguns séculos atrás — , na sociedade ocidental, os filhos da nobreza não eram criados na companhia dos pais. Isso sem falar em complexos sistemas de parentesco encontrados entre diversos grupos sociais: indígenas, povos africanos, povos da Oceania.

Nossos dias atuais testemunham a emergência da “família mosaico”. A instabilidade das relações matrimoniais, associada ao estabelecimento de novas relações, dá origem a famílias em que o elemento consanguíneo, se ainda se faz presente, o faz mediante a grande mistura. Os meio-irmãos, padrastos e madrastas ampliam aquela estrutura fechada da família canônica. Em alguns casos essa família ampliada se relaciona de forma harmônica, em outros, rivalidades e alianças são criadas. Em suma, novas relações de poder emergem e, por conseguinte, novas formas de organizar as relações sociais.

É bem verdade que a família “canônica” ainda não desapareceu e, muito pelo contrário, continua sendo uma espécie de ideal normativo, ao menos para o senso comum. Não obstante, a tendência de ampliação da família, conjugada com a compressão do tempo-espaço, conduz a uma dissociação do vínculo estrito família-consanguinidade.

Não quero julgar se isso é bom ou ruim. Não obstante, é preciso ter em conta um outro conceito de família, o qual se baseia na afinidade.

E tal conceito de família, baseado na afinidade, não vem de hoje. Basta nos lembrarmos de uma passagem do Evangelho:

E, falando ele ainda à multidão, eis que estavam fora sua mãe e seus irmãos, pretendendo falar-lhe. E disse-lhe alguém: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te. Ele, porém, respondendo, disse ao que lhe falara: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe. (Mateus, 12:46-49)

Vê-se nesse exemplo um conceito de família orientado pela afinidade, neste caso por uma fé comum. Não é a toa que os fiéis de uma determinada igreja costumam saudar-se como irmãos.

E talvez seja esse o futuro da “família”: de um vínculo estritamente consanguíneo para um vínculo eminentemente afim. Quiçá nesse dia a compaixão pelo próximo possa ser mais do que um belo discurso. E que as pessoas possam estar juntas não por uma condição, mas por uma opção — e fazer projetos para o futuro, como propunha Hannah Arendt.

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