Desenvolvimento sustentável: conservador ou revolucionário?

Dizem que quanto mais você sabe, mais se desaponta. Não sei se isso vale pra tudo, mas, de modo geral, é isso que acontece. No que diz respeito à ideia de desenvolvimento sustentável, é isso que acontece.

De tudo que tenho lido sobre o tema, o que eu percebo é que esse “conceito” mais confunde do que fornece um horizonte para uma verdadeira mudança na relação ser humano e meio ambiente. Por um lado, existe uma ingênua unanimidade quanto à busca do desenvolvimento sustentável. Todos estão de acordo em buscar um modelo de desenvolvimento no qual os recursos disponíveis no planeta sejam preservados para utilização das gerações futuras, ou mesmo de todos os povos deste planeta. Por outro lado, não há acordo em como deve ser esse modelo de desenvolvimento.

Tal mudança na relação homem-meio ambiente pressupõe uma transformação social radical. Ou seja, não há como mudar a relação da humanidade com a natureza entendendo a humanidade como um grupo homogêneo, sem conflitos internos de interesses, sem diferenças sociais que condicionam o acesso a melhores ou piores condições de vida. E, desse modo, não se pode falar seriamente de sustentabilidade num contexto capitalista, em que a busca do lucro é um imperativo. Primeiro, porque os recursos naturais, bem como a capacidade de o ambiente absorver os resíduos da atividade econômica são limitados. Mesmo a capacidade da tecnologia reduzir o impacto das atividades humanas também não é infinita. A busca do lucro no capitalismo, no entanto, é ilimitada.

Além disso, no limite, de acordo com a segunda lei da Termodinâmica, tomada como fundamento da teoria da economia ecológica de Nicolas Georgescu-Roegen, as atividades humanas tendem a promover o aumento da entropia (desorganização da matéria, resultando na dissipação de energia na forma de calor, que se torna inaproveitável). No fim das contas, toda energia há de ser dissipada. Nessa concepção — pessimista, diga-se de passagem –, a opção que restaria à humanidade seria reduzir o ritmo de suas atividades, a fim de prolongar a perspectiva de sua existência.

Nosso planeta Terra

Nosso planeta. Nosso futuro comum. "Nosso" de quem?

Mesmo sem adotar uma perspectiva tão pessimista, é indiscutível que não se pode manter uma dinâmica de exploração dos recursos do planeta baseada na criação constante de novas necessidades. Nisso consiste mais uma das falácias da possibilidade de desenvolvimento sustentável dentro do capitalismo. Muitos defensores da atual ordem das coisas, de maneira otimista ressaltam que cada vez mais a produção de serviços e mercadorias se tornam mais eficientes, consumindo menos recursos e poluindo menos. Pode até ser verdade, se tomarmos o impacto ambiental relativo a uma unidade de produto. Contudo, o que se observa, é cada vez mais um encurtamento do ciclo do capital. Os produtos, cada vez mais, tem um ciclo de vida mais curto. Os produtos eletroeletrônicos, particularmente, tem uma vida útil cada vez menor: seja pela obsolescência programada, seja pela baixa qualidade dos produtos. O que se tem, no fim das contas, é que o impacto ambiental em termos absolutos, tende a se tornar cada vez maior nesse modelo de produção.

Agora, como o capitalismo adota uma “aura verde” nos nossos dias atuais?

O que se tem observado é uma crescente apropriação da questão ambiental pelas empresas, as quais visam associar a preocupação com o meio ambiente às suas marcas. Essa associação tem como resultado uma valorização da marca, cuja eficácia simbólica se reflete em lucros reais. O processo, pode ser entendido da seguinte forma: o consumidor, cada vez mais alienado, cada vez mais distante da vida pública, sente que por meio do “consumo verde” adota uma postura cidadã, um engajamento na busca do desenvolvimento sustentável. É o consumo da cidadania e a cidadania do consumo. Por outro lado, as empresas conseguem uma série de benesses e financiamentos para tornar seus processos mais eficientes — e mais econômicos. A empresa capitalista sai ganhando em todos os termos: economiza em termos da eficiência de seu processo produtivo; e valoriza sua marca, o que se reflete num aumento das vendas.

E essa tem sido a dinâmica hegemônica no que diz respeito à apropriação do “conceito” de desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento sustentável mostra um caráter conservador. Continua sendo uma promessa de um mundo melhor, promessa que, nessa dinâmica, continuará a ser uma virtualidade.

Um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, portanto, não pode abdicar da busca de uma transformação social profunda. O que significa dizer que é necessária uma mobilização política que busque resgatar o verdadeiro significado do desenvolvimento sustentável: uma utopia possível, haja vista os progressos já atingidos pela humanidade como um todo. Uma utopia que aponta para um mundo mais justo, mais fraterno. Enfim, uma utopia que aponte para outra direção. É preciso resgatar o sentido revolucionário do desenvolvimento sustentável.

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2 Respostas para “Desenvolvimento sustentável: conservador ou revolucionário?

  1. Muito boa análise! Bom, você já deve conhecer o movimento Zeitgeist e o projeto Vênus, certo? Se não conhece, não posso deixar de recomendar o filme “Zeitgeist Addendum”, que aborda algumas questões acima e sugere o uso do verdadeiro potencial tecnológico para resolver os grandes impasses atuais da sociedade humana… é claro que, como você apontou muito bem no artigo, isso vai exigir reformulações profundas — e os capitalistas já deram um jeito de lançar suas garras e deturpar o sentido das coisas.
    E cá estamos todos nós (povo), consumindo o enlatado, como sempre.

    Abraços,

    • Oi Rubens!
      Conheço o movimento Zeitgeist e o projeto Vênus sim. Concordo com eles: se o desenvolvimento capitalista não é o caminho, uma volta a formas mais “primitivas” de organização também não resolve o problema da humanidade. Também concordo com o que eles dizem sobre a tecnologia: ela tem um grande potencial que é reprimido, principalmente pelas práticas monopolistas. Tem um livro muito interessante do André Gorz, “O imaterial”, em que esse autor fala sobre os projetos de software livre como uma espécie de “dissidência do capitalismo digital”, ou seja, o que constitui o “capital imaterial” — conhecimentos e saberes — tem uma tendência a escapar das formas capitalistas de apropriação privada (patentes, direitos autorais, etc.).
      Abraço

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