Belo Monte de contradições

Ontem, 20/04/2010, um dia após o Dia do Índio, foi realizado o leilão para a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu (PA). A ironia é que grupos indígenas, entre ambientalistas e ribeirinhos, são um dos principais opositores à essa usina. A construção da usina demandará a inundação de uma extensa área — ocupada por populações indígenas e ribeirinhas –, além de provocar mudanças na vazão do rio Xingu.

O governo, por sua vez, destaca a importância da obra no aumento da oferta de energia elétrica no país, a um preço competitivo. Às objeções de origem ambiental, a resposta do governo é de que foram conduzidos rigorosos estudos de impacto ambiental. Outrossim, ressalta-se que as hidrelétricas são fonte de energia limpa, que não contribui para a emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, para o problema de aquecimento global.

Tudo isso é muito questionável. Será que no custo de geração dessa energia elétrica estão embutidos os custos ambientais que a instalação dessa usina provocará? Ainda que tais custos tenham sido calculados, como garantir que tudo sairá como previsto, ou seja, que essa obra não implicará em custos ambientais não previstos a priori? E quanto ao efeito estufa, pode-se objetar que a inundação de uma grande área provocará a morte de muitas árvores e espécies vegetais, implicando na liberação de metano na atmosfera — será que isso entrou na conta?

As contradições não ficam restritas ao plano ambiental. Provavelmente quem se posiciona contrariamente à construção da usina — meu caso — será chamado de conservador, submisso aos interesses externos, contrário ao desenvolvimento nacional e ao progresso. O que tenho a dizer é que os nacional desenvolvimentistas muito deveriam se preocupar com essa usina — a qual, segundo eles, deverá ser a 3ª maior do mundo.

Para quem tem em mente um projeto nacional, deve-se levar em conta que um projeto como esse pode ser um sério risco à segurança nacional — motivo muito invocado pelos militares durante a ditadura. A razão é bem simples: se uma boa parte do país ficar dependente da energia gerada nessa usina, tanto ela como suas linhas de transmissão se constituirão em elementos de grande vulnerabilidade para o país. Basta ver o que aconteceu há pouco tempo, durante o rápido apagão causado por uma interrupção na linha de fornecimento vinda de Itaipu. Esse problema deixa claro que, se um dia alguém quiser tomar o Brasil, basta bombardear Itaipu ou suas linhas de transmissão para que metade do país fique no escuro — e sem comunicação, com centros administrativos paralisados. A política energética, portanto, deveria privilegiar a descentralização da geração e da distribuição da energia, diminuindo esse tipo de vulnerabilidade. Isso poderia ser feito mediante a substituição das fontes de energia por energias mais limpas — privilegiando fontes como a eólica e a solar — , inclusive com incentivos para que a população instalasse painéis solares em suas unidades residenciais. Ou seja, mudar o paradigma da política energética é justamente um imperativo para que o país não fique sujeito — ou pelo menos vulnerável — aos interesses externos.

Ativistas do Greenpeace protestam contra Belo Monte

Ativistas do Greenpeace protestam contra Belo Monte

Deixando essas considerações nacionalistas de lado, há de se pensar que os problemas ambientais se manifestam de maneira global. Não deveriam, portanto, ser pensados apenas na dimensão nacional. Que o digam os países insulares do Caribe e do Pacífico Sul, seriamente ameaçados pela elevação dos níveis do mar. Isso sem falar no impacto que esse empreendimento poderá causar às novas gerações. Falar de sustentabilidade implica ampliar os horizontes de observação no tempo e no espaço para a tomada de decisões: pensar num horizonte temporal mais amplo, na capacidade das futuras gerações atenderem às suas necessidades; assim como pensar num horizonte espacial mais amplo, levando em conta o impacto dos problemas ambientais sobre outros povos.

Penso, portanto, que nem para aqueles que defendem a soberania nacional, nem para aqueles que adotam o discurso globalista do desenvolvimento sustentável, esse projeto de Belo Monte pode ser considerado como um avanço. Mesmo no campo político isso significa um retrocesso: pouco mais de vinte anos após a promulgação da Constituição de 1988 — a Constituição “cidadã” — a sociedade civil foi simplesmente ignorada frente aos planos do governo, orientados pela ideia de um progresso inexorável. Isso sem falar nos interesses privados, daqueles que se beneficiarão de financiamentos de longo prazo com taxas de juros reduzidas, de dinheiro público, em última instância.

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