Emprego estável x vida estável

No futebol, a bola corre mais que o jogador. Os boleiros entendidos sabem muito bem disso. Por esse motivo, um time rápido não é necessariamente um time que tem os jogadores mais velozes. Mas aquele em que os jogadores tocam a bola com mais velocidade, envolvendo o adversário.

O leitor deve estar pensando que eu me enganei no título do post, que aparentemente não tem nada de futebolístico. Bem, na verdade, o futebol é a deixa para uma metáfora: da mesma forma que nesse esporte, no jogo do capitalismo o capital se movimenta mais rápido que o trabalho.

No atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas e sobretudo das telecomunicações — provocando uma compressão do tempo e espaço, segundo David Harvey — , tornou-se extremamente fácil deslocar a produção de um ponto a outro do planeta. Como um lançamento de 30 metros, para retomar a metáfora do futebol. Os jogadores, ou melhor, os trabalhadores, nem sempre encontram tamanha facilidade para efetuar esse deslocamento.

Por um lado, existem as restrições às migrações: basta olhar para a fronteira dos EUA com o México e a ostensiva fiscalização; para os países da Europa Ocidental e as políticas anti-imigração. Ou seja, o capital pode se concentrar em determinadas ilhas. As pessoas, no entanto, muitas vezes se veem impedidas de tentar a sorte — vender sua força de trabalho — em algum lugar em que aparentemente existem melhores oportunidades. Trata-se evidentemente de desempregados, desalentados, perseguidos políticos, enfim, pessoas que encontram dificuldades de alcançar seus sonhos em sua terra natal.

Por outro lado, aqueles que gozam de uma posição relativamente estável no jogo capitalista, também não necessariamente se beneficiam dessa elevada mobilidade do capital. A estabilidade no emprego, condição que hoje em dia é encarada como um privilégio, pode também apresentar suas desvantagens. É falsa a impressão de que essa condição de emprego estável seja sinônimo de vida estável. Em alguns casos, pode até ser verdade. No entanto, diante dessa tendência de alta mobilidade do capital, a estabilidade no emprego pode ser fator desestruturante: imagine que você tenha de, em nome da manutenção do seu emprego, mudar de cidade a cada dois ou três anos; ou então, constantemente mudar a função que desempenha no interior de uma empresa, sujeito a variações salariais; ou ainda, quem sabe, passar a “morar” em aeroportos e aviões, tendo como único endereço o seu e-mail.

Aeroporto: o lar do operário-padrão do século XXI

Nesse jogo capitalista, vemos duas tendências antagônicas em relação ao trabalho: por um lado, a condução de grandes contigentes de pessoas ao trabalho precário, eventual ou mesmo ao desemprego contumaz (condição de permanente transitoriedade, conforme R. Castell). Por outro lado, a tendência de “yuppiezação” daqueles que estão empregados, ou seja, tendência de que suas vidas sejam completamente subordinadas ao trabalho — seus planos pessoais, suas aspirações e mesmo seu tempo livre, o qual pode ser invadido a qualquer instante via BlackBerry.

A minha leitura desse jogo é de que o capital colocou a humanidade “na roda”. E o pior, os agentes dessa situação são os próprios homens, agindo a serviço do capital. Não vejo outra perspectiva para a humanidade senão “melar” esse jogo. E a forma de fazer isso é por meio da recusa do trabalho. E entenda-se bem: quando digo trabalho, estou tratando dessa relação social específica do modo de produção capitalista. Uma relação que não é mais capaz de esconder seu caráter de dominação. Não me refiro ao trabalho no sentido “antropológico”, isto é, como o meio pelo qual o homem transforma a natureza e se exterioriza, conforme o jovem Marx. A abolição do trabalho no sentido capitalista implica na abolição da geração de valor; na produção orientada para os valores de uso e não para os valores de troca; para o atendimento das necessidades humanas e não ao fim em si mesmo de multiplicação indefinida do capital.

Estamos perdendo esse jogo. Para nós mesmos. Já é hora de percebermos que se o abandonarmos, poderemos deixar o reino da necessidade em direção ao reino da liberdade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s