Medo da morte?

O senso comum costuma atribuir o medo da morte ao medo do desconhecido. Até certo ponto posso concordar com essa explicação, pensando nas incertezas sobre o destino da nossa consciência, da possível desintegração do “eu” após a interrupção do funcionamento do organismo humano. Por outro lado, esse medo do desconhecido não serve de explicação. Muito pelo contrário: o único evento que temos certeza de sua ocorrência é, afinal, a própria morte. É ela, aliás, que permite conferir um sentido único à vida.

É bem verdade que não sei quando, nem como morrerei, mas isso é fato. Diferentemente do caso de se, um dia, por exemplo, me casarei. Este último evento é completamente incerto, diferente do primeiro. Desta única certeza imersa num universo de incertezas é que tentamos — algumas vezes em vão, outras com sucesso — trilhar um caminho, criar uma obra chamada “vida”. O fato de que temos um prazo desconhecido para terminar essa obra, sem dúvida, pode ser um incômodo. Principalmente para aqueles que “vivem como se nunca fossem morrer; e morrem como se nunca tivessem vivido”.

De tudo isso, me parece que a morte não deve ser motivo de temor, mas, quem sabe, de conforto. Conforto de saber que um dia nossa estafante jornada por esse mundo desvairado um dia terminará. De que nada é tão ruim que no fim não possa ser aliviado pela nossa “partida”. É necessária, porém, uma outra postura diante da vida: viver um dia de cada vez, contemplando da melhor maneira possível as experiências por que passamos, assim como tratando da melhor maneira possível as pessoas com as quais nos encontramos pelo caminho; tendo a plena consciência de que tudo é transitório e que, se há alguma eternidade, essa eternidade está na efemeridade do momento. Vivendo dessa forma, talvez seja possível encarar de maneira mais natural o nosso destino inescapável.

De modo que, se tenho algum medo, tenho medo da Medicina. Sim, da Medicina moderna. Não quero de maneira alguma desmerecer essa nobre profissão, enquanto ela visa à vida. E quando digo vida, penso que dela não se pode dissociar o valor da dignidade. Afinal, o que é a vida sem a dignidade, sem o respeito pela condição humana, de um ser portador de esperança e alegria; dor e sofrimento? A modernidade, no entanto, parece dar pouco valor àquilo que não pode ser representado numericamente. Como a dignidade não pode sê-lo, a racionalidade moderna perverte o estatuto da Medicina, fazendo desta um meio de adiamento de cadáveres. Ao invés de se preocupar efetivamente com a vida do paciente, a Medicina moderna é levada apenas a postergar sua morte — vítima da ilusão que mais anos de vida significam, indubitavelmente, uma vida melhor. E a Medicina, de profissão consagrada a salvar vidas, passa à condição de ofício quase industrial de produzir doentes. Isso sim me dá medo.

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