Estamos prontos para envelhecer?

Hoje fiquei chocado com uma notícia que li no portal Terra, cujo título é Condomínio atrasado faz síndico descobrir francês morto há 3 anos. Segundo a notícia, a morte de um francês de 70 anos, ocorrida faz três anos, só veio a ser descoberta depois que o síndico resolveu empreender uma busca pelas parentes do idoso, motivado pelo atraso no pagamento do condomínio. Até então ninguém tinha dado falta daquele senhor, tampouco se queixado de eventual mau cheiro exalado pelo corpo em decomposição.

Esse tipo de notícia revela quão despreparada está nossa sociedade para lidar com seu envelhecimento. Estamos prontos para envelhecer? Certamente não. O caso do senhor francês revela alguns desafios a serem superados.

O primeiro diz respeito à tendência de isolamento dos idosos, se não entre eles, em relação à sociedade como um todo. A partir do momento em que não podem vender sua força de trabalho, são relegados a uma condição marginal — ainda que disponham de algum rendimento proveniente de um sistema de previdência social — dado que em nossa sociedade capitalista o mercado é o espaço por excelência das relações sociais. Ou seja, sua participação na esfera pública se vê tanto mais obstruída quanto mais essa esfera se confunde com o mercado. Quando podem participar, de algum modo, o fazem na condição de consumidores — de remédios e serviços de saúde principalmente. A relação de consumo, no entanto, é um tipo de relação que costuma esgotar-se em si mesma, com um pequeno potencial de criar laços sociais persistentes, sobretudo em grandes centros urbanos.

Em segundo lugar, o imperativo do trabalho assalariado sufoca a emergência de redes de solidariedade, por meio das quais as pessoas poderiam se comprometer espontaneamente com o cuidado dos idosos. Isso é particularmente evidente quando se observa a dificuldade de filhos ou parentes conciliarem o trabalho com o cuidado adequado de seus pais ou parentes mais velhos. Desse modo, apenas os mais abastados podem receber cuidados adequados mediante a contratação de prestadores de serviço ou de instituições especializadas. Alguns podem contar com a boa vontade da caridade de voluntários, ou mesmo de parentes desempregados. Contudo, não é possível perceber a institucionalização de uma organização social para o cuidado dos idosos — como o são as creches no caso das crianças pequenas.

De fato, a situação do idoso é complexa: trata-se de um indivíduo que à semelhança das crianças pequenas requer cuidados especiais, mas diferentemente destas já tem formada sua personalidade, sua individualidade, sua história de vida, sua autonomia. Deparamo-nos com o problema de como disponibilizar-lhe os cuidados especiais de que necessita sem que isso se configure em uma restrição de sua autonomia, de sua liberdade. Afinal, como eles gostariam de ser tratados? Essa é uma questão tão pessoal que comporta tantas respostas quantos idosos existam: alguns gostariam de se ver incorporados no seio de suas famílias; uns gostariam de preservar sua independência, morando sozinhos; outros ainda prefeririam viver no convívio de seus contemporâneos, compartilhando a experiência do envelhecimento.

Desse modo, fica evidente que não existe uma resposta à questão de como tratar nossos idosos. Entretanto, não é possível negar que em nossa sociedade a experiência de envelhecer é, na maioria dos casos, uma experiência muito difícil e, de certa forma, cruel. Isso porque nesse mundo, dominado pelo ritmo frenético das inovações técnicas e científicas, há pouco espaço para a valorização da sabedoria. Num mundo em que a cada dia são feitas novas descobertas, o conhecimento “tradicional” é cada vez mais deixado de lado em favor da novidade diariamente descoberta. Ou seja, o idoso não vê apenas seu organismo tornar-se mais frágil e debilitado, mas também desvanecer o reconhecimento de sua experiência de vida. E essa falta de reconhecimento se reflete no lento e progressivo isolamento, seja pelas barreiras físicas que se lhe impõem, seja pela atenção que deixa de receber do conjunto da sociedade.

É bem verdade que o envelhecimento, tal qual o observamos hoje, de maneira cada vez mais generalizada, é um problema com o qual a humanidade se depara pela primeira vez. Sempre existiram anciões nas sociedades humanas, mas talvez não numa proporção tão alta em relação ao total da população. Ou, ainda que fossem proporcionalmente numerosos, em uma sociedade “tradicional” o valor de sua sabedoria era o suficiente para garantir-lhes um lugar de grande importância.

Não obstante, não devemos nos eximir da tarefa de reorganizar a sociedade a fim de estar mais bem preparada para o envelhecimento, tendo em vista se tratar de uma crescente tendência. Para tanto, é urgente que sejamos capazes de superar a “sociedade do trabalho”, em direção a uma “sociedade da cultura”. Só dessa maneira seremos capazes de dar o devido valor à sabedoria dos nossos idosos, permitindo que continuem a participar da vida social — entre outras coisas, na “produção cultural” — , bem como de criarmos redes de solidariedade capazes de lhes oferecer o merecido cuidado. As condições objetivas — tecnológicas — estão disponíveis. O desafio é superar o fetiche do trabalho.

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