Educação profissionalizante vs educação humanizante

Em ano eleitoral — é inevitável — os partidos políticos falarão dos seus projetos para a educação.

Nesse sentido, o que parece uma tendência, é a valorização — a meu ver excessiva — do ensino profissionalizante. Muito se vê, em termos de propaganda dos governos, com respeito à instalação de escolas técnicas — tanto cursos profissionalizantes, quanto cursos superiores tecnológicos. O motivo dessa valorização é óbvio: a educação profissional apresenta tanto traços de política educacional, quanto de política de geração de emprego e renda. De modo que não se pode, de maneira alguma, menosprezar a importância desse tipo de ensino.

O problema é quando o ensino profissionalizante, por essas qualidades já mencionadas, acaba tomando espaço — e recursos — das demais modalidades de atividade educacional. Isto é, embora louváveis as iniciativas de instalar escolas técnicas e cursos profissionalizantes, seriam ainda mais louváveis essas iniciativas se a educação básica, o ensino médio e mesmo o ensino superior — tanto no âmbito público quanto privado — se mostrassem capazes de prover uma formação humanística satisfatória. O que se observa, no entanto, é uma sobrevalorização da formação das competências técnicas em detrimento do desenvolvimento do aluno como ser humano, como cidadão.

Essa tendência à tecnização vai, de todo modo, ao encontro do ideário propalado em nossa sociedade, segundo o qual o emprego além de fonte única de acesso ao rendimento é, também, a única forma de se obter dignidade. Sendo assim, antes de formar um cidadão capaz de participar da vida pública, o sistema educacional prioriza a formação de mão-de-obra qualificada, conforme as necessidades do mercado de trabalho, o qual, por sua vez, está sempre sujeito às mudanças técnicas que afetam os processos produtivos. (Ou seja, muitas vezes com recursos públicos, atende-se a uma demanda específica de mão-de-obra da iniciativa privada, a qual, em contrapartida, cria novos empregos a fim de melhorar os indicadores sociais — o que ninguém procura saber é sobre a rotatividade dessa mão-de-obra.) De modo que, antes do cidadão prioriza-se o operário; antes do cidadão, capaz de participar da vida social, coloca-se o técnico, o especialista, capaz de atender às demandas do mercado; antes do desenvolvimento das faculdades humanas, coloca-se à frente a “empregabilidade” — enfim, ao invés de valorizar a formação de um sujeito autonômo, essa política favorece o desenvolvimento de homens e mulheres heterônomos, empregáveis enquanto sua qualificação valer algo para o mercado.

Os precursores do iluminismo devem se remexer em suas tumbas ao verem o rumo que tem tomado a universalização do conhecimento hoje em dia: trata-se de uma universalização cada vez mais parcial, formando seres humanos cada vez mais parciais, cada vez mais incapazes de reconhecer, nem que de longe, todo o esplendor do conhecimento humano. Não penso que o ensino deva formar super-homens ou super-mulheres. Mas também não posso deixar de desejar que o sistema educacional proporcione aos seus alunos nem que seja uma leve noção dos mais diferentes ramos do conhecimento, das artes, dos esportes, contribuindo para uma formação mais humanizante o possível. Além disso, que possa proporcionar-lhes ocasião de se auto-organizarem, distribuirem entre si as tarefas diárias, de se responsabilizarem pelo sua escola, bem como pelo seu semelhante.

Posso dizer por mim mesmo: se não fosse uma certa teimosia, além de certa indecisão quanto ao rumo a seguir, provavelmente jamais eu teria podido experimentar o conhecimento de tão diferentes fontes. Aprender um pouco sobre arte, religião, novos idiomas, sobre as tarefas do dia-a-dia e também — por que não? — diferentes conhecimentos técnicos. Saber um pouco de cada coisa me permitiu reconhecer a complexidade que por trás de cada uma das atividades existe, de modo que sinto-me muito mais capaz de valorizar o trabalho de uma outra pessoa. Um exemplo: há um tempo atrás, comecei a aprender piano. Ainda que não tenha nenhuma expectativa de um dia me tornar um virtuose, mesmo assim, devo reconhecer que esse aprendizado revolucionou o meu entendimento sobre o que é a música — o que era, até então, algo de pouca importância para mim — e o reconhecimento que hoje eu tenho pelo trabalho dos músicos, trabalho que exige sensibilidade, muita prática e também um toque de talento.

Diante de tudo isso, penso que uma proposta séria para a educação só será possível se não levar em conta apenas o ensino profissionalizante, mas uma educação humanizante.

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