Geração X para além da sociedade do trabalho

Transcrevo abaixo alguns excertos do livro Misérias do Presente, Riqueza do Possível, de André Gorz (São Paulo: Annablume, 2004). Esses fragmentos do texto me fizeram pensar sobre as modificações pelas quais passa nossa sociedade, revelando a perda da centralidade do trabalho-emprego. Tais mudanças já ocorrem no plano cultural, embora sejam “embargadas” pelo plano político, que busca inspiração no passado para as alternativas de futuro — sendo a mais notória falácia a promessa de um estado de pleno emprego.

Em um período em que os valores familiares perdem validade e que os “papéis” sociais e profissionais, em razão da sua precariedade, labilidade e falta de consistência, não podem mais conferir “identidades” estáveis aos indivíduos, só uma hermenêutica do sujeito pode permitir à sociologia decifrar a busca sem fim pela qual esses indivíduos são destinados a definir-se a si próprios e a dar sentido e corerência a sua existência. (p. 72)

Foi o escritor canadense Douglas Coupland que, em uma obra transformada em best-seller internacional, a meio caminho da pesquisa-reportagem, do romance e do documento, revelou e batizou de Geração X esta geração de jovens que se “recusa a morrer aos 30 anos, esperando ser enterrada aos 70.” (p. 73)

A revolução é completa: o indivíduo foi súbito despojado de todas as máscaras, de todos os papéis, de todos os lugares, identidades, funções, que não podia manter sozinho e pelos quais a sociedade, conferindo-os, dispensava-o também, e impedia-o, de aparecer a si como sujeito. Está entregue a si mesmo, nu, sem proteção contra si, sem obrigação e sem abrigo, abandonado por uma sociedade que não baliza mais seu futuro. Ei-lo confrontado à tarefa de ter de construir a si mesmo e a uma outra sociedade no lugar daquela que o abandona: confrontado à tarefa que todas as sociedades — inclusive aquelas que já agonizam — mais temem, pois trata-se da tarefa que requer antes de tudo gente insubmissa, revolucionária, resistente, rebelde: a tarefa de liberar-se dos papéis sociais e “tornar-se sujeito, opondo-se à lógica de dominação social em nome da lógica da liberdade, da livre produção de si.” (p. 77-78)

Quando o trabalho-emprego deixa de ser a fonte de identidade do indivíduo, não resta outra saída senão tornar-se sujeito da própria vida — e não mais apenas uma ferramenta social.

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