Água que dá a vida – e destrói a civilização

Que a água é o elemento primordial para a vida em nosso planeta, disso não há dúvida. Tanto que as missões espaciais, principalmente em Marte e na Lua, sempre buscam vestígios de gelo ou ainda de moléculas de água. A vida, tal qual conhecida por nossa ciência, é tributária da água — além de carbono, nitrogênio, fósforo e oxigênio. O corpo humano, por exemplo, apresenta um percentual de aproximadamente 75% de água. Alguns vegetais chegam a mais de 90%!

Diante desses dados, chega a ser curioso o fato de que a mesma água que nos dá a vida tem se mostrado crescentemente uma ameaça à atual configuração de nossa civilização. Este mês de janeiro de 2010 tem sido paradigmático neste sentido, com a tragédia de Angra dos Reis, a inundação de São Luiz do Paraitinga, a queda de uma ponte no Rio Grande do Sul e as constantes inundações na Zona Leste de São Paulo.

Enchentes castigaram São Luiz do Paraitinga

Enchentes castigaram São Luiz do Paraitinga

Essa aparente ironia talvez seja uma provocação, que nos convide a (re)pensar o nosso modelo de civilização. Um modelo segundo o qual a fonte de vida por excelência tem se transmutado em força destruidora. Isso porque o modelo de civilização atual é baseado na premissa de que o ser humano é o sujeito e a natureza é um mero objeto, a ser dominado e subjugado pelo poder da ciência e da técnica. Essas tragédias nos revelam de maneira clara que a premissa de dominação da natureza é uma falácia, uma vez que o ser humano e sua tecnociência se veem prostrados diante da força da natureza.

Repensar o nosso modelo de civilização, no entanto, não deve se restringir às questões concernentes à relação entre o ser humano e a natureza, como se o ser humano fosse uma espécie homogênea, com um comportamento previsível por parte de todos os indivíduos. Bem sabemos que a realidade não é assim. O ser humano vive numa sociedade, a qual se funda em relações complexas, as quais apresentam como resultado fortes desigualdades sociais. Portanto, antes de se pensar a relação com a natureza, é fundamental repensarmos a relação com o nosso próximo. Como podemos conceber uma relação harmônica do homem com a natureza se a própria sociedade humana se ampara em relações de exploração? É preciso, em primeiro lugar, que haja harmonia em nossa sociedade. A partir daí, sim, pode-se falar em relações harmônicas com a natureza.

De todo modo, quem sabe, a água não esteja nos oferecendo novamente a vida, ao nos fazer refletir sobre que tipo de civilização nós queremos. Assim, seremos capazes de, por nossas próprias mãos, enterrar esse modelo nefasto de civilização e inaugurar uma relação de novo tipo com a natureza e com a sociedade humana — sem que ocorram novos desastres.

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